Indagações

5 11 2009

Sara Augusto

 

 

VaticanoO estudo da literatura de viagens no contexto da literatura portuguesa tem sido ocupado quase exclusivamente com a literatura produzida no âmbito da expansão ultramarina, abrangendo diários, relatórios, relações, relatos, roteiros, cartas, todo uma produção capaz de fazer a história dos descobrimentos portugueses desde o extremo Oriente até ao sertão do Brasil. O prolongamento desta literatura pelo século XVII e XVIII adiante foi feito sobretudo pelo recurso aos relatos de naufrágios, realçando a narrativa de aventuras por mares inóspitos, a espectacularidade do desastre marítimo e a visualização do sofrimento e do heroísmo.

Isto significa que uma percentagem significativa da literatura de viagens, neste caso não só as viagens a Roma mas também as viagens pelo resto da Europa, foi esquecida desde muito cedo por não corresponder a uma tipificação estabelecida pela viagem ultramarina. Este facto torna-se evidente quando verificamos a quase total inexistência de registos impressos das viagens a Roma, tendo-se mantido até agora os manuscritos guardados nas secções de livro antigo das bibliotecas e dos arquivos.

Contudo, estas narrativas, relações, relatos e descrições da viagem romana, são de fundamental importância para a literatura portuguesa, pelo facto de permitirem o desenho do contexto envolvente da viagem, pelas referências a personagens e factos, descrição de rotas e locais, oferecendo com frequência visões amplas da sua época. Esta envolvência torna-se ainda mais importante na época barroca, período em que encontramos o maior número destas narrativas à cidade dos Papas, uma vez que o discurso barroco privilegia aspectos diversos e distintos, optando por um discurso mais atento à descrição de personagens e ambientes, focando a atenção na ostentação e curiosidade artística.

Colocando-nos, então, na época barroca, colocam-se duas questões: por que razão se vai a Roma? Por que se regista a viagem?





BNP ao som do Magnificat

23 10 2009

Sara Augusto

 

 

Levei para Roma o meu novo notebook quase sem mais nada para além do material necessário à minha investigação sobre as viagens a Roma. Depois de um par de dias já tinha pedido ajuda ao Padre Adriano e ao Padre Hélder que, sempre atenciosos,  me encheram a pen de todo o tipo de música, cada um com o seu género preferido. E lá fui definindo a banda sonora para o mp3, enquanto me deslocava de autocarro e deambulava pelas ruas, museus e igrejas, e para as longas horas de trabalho nas bibliotecas. Depois de seis meses ainda é a mesma e eu continuo a andar de comboio e autocarro e a passar dias nas bibliotecas…

Marco FrisinaE hoje aconteceu o inevitável. Liguei os ascultadores no sítio errado, na entrada para o microfone, coloquei os fones nos ouvidos e deixei que o tema The shepherds, do Marco Frisina, ecoasse altíssimo na minha cabeça. Ecoou alto, mas de forma diferente do costume. Só entendi o que se passava quando senti que todos os olhos, e ouvidos, dos leitores da sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Portugal se tinham virado para mim e ouviam, juntamente comigo, o tema líndissimo dos pastores na adoração do menino recém-nascido… foram momentos gloriosos, nunca vistos, nunca ouvidos!!!

Fiquei vermelha, atrapalhadíssima, sem conseguir baixar o som e acabei por desligar o computador atabalhoadamente e todos os documentos que tinha entretanto aberto. Já está na hora de saída e ainda me olham de lado. Consegui tirar todas as fotocópias do microfilme da Gazeta de Lisboa com notícias sobre a celebração as exéquias de D. João V na sé de Viseu e mais algumas. É melhor prevenir… não sei se para a semana ainda me deixam entrar ou se resolvem cancelar-me o cartão por alguns meses…

bnpE demorei tanto tempo a contar-vos isto que cheguei quatro minutos depois da hora a Santa Apolónia e perdi o comboio. Se não tivesse acordado com um abraço da Inês, a minha sobrinha lisboeta, e encontrado aquele documento precioso nas velhas gavetas onde pesquisei durante tantos anos há tanto tempo, hoje o dia teria sido um poço de estranhas surpresas.





Segunda Guerra Mundial

16 10 2009

Sara Augusto

 

 

Visitar Varsóvia pode ser uma experiência complicada. Toda a cidade foi destruída e a catedral e o castelo de hoje são o resultado de uma tarefa imensa de reconstrução com base em quadros, que representavam a cidade, e planos antigos. Em cinquenta anos a cidade renasceu, pouco a pouco, cada vez mais elegante e cosmopolita.

Depois da guerra ficou assim (fotos expostas no castelo real):

Varsovia 169

 Varsovia 171





Warszawa

14 10 2009

Sara Augusto

 

 

O Parque Lazienki continua a ser um dos meus preferidos de Varsóvia, a pouco mais de 20 minutos a pé do Centrum e do Palácio da Cultura. Desta vez estava sol, um belíssimo Outono Dourado, com uma luz que ao fim da tarde fazia apetecer ouvir Chopin. Há quase dois anos, na minha última visita, chovia e estava imenso frio e o palácio levantava-se das águas, meio escondido na bruma. Desta vez os contornos eram mais claros e luminosos, mas a magia era a mesma. Além do link, ficam algumas das minhas fotografias.

Varsovia 101

Varsovia 091

Varsovia 128

Varsovia 132

 Varsovia 109





St Patrick’s College

10 10 2009

Sara Augusto

 

Este ano o Congresso da Abil (The Association of British and Irish Lusitanists) decorreu na Universidade de Maynooth, na Irlanda, a meia hora de comboio de Dublin. Não éramos muitos. Para além dos ingleses e dos irlandeses, havia alguns americanos, cinco ou seis portugueses, e conversei ainda com alguns professores e investigadores que vinham da Dinamarca e da Holanda.

Eu e a Helena, depois de termos perdido duas horas por causa de um engano de comboios, que levou sabe Deus onde, conseguimos chegar a Maynooth já eram 10 horas da noite. Tenho pena de a minha HP ser uma máquina fotográfica que não se dá bem com a escuridão, porque o St Patrick’s College, àquela hora, pareceu-me um castelo antigo, com a sua fachada imponente, iluminada, e as torres da igreja gótica (só depois percebi que era neo-gótica) levantadas na noite. O congresso desenrolava-se nos edifícios novos da universidade, no North Campus, mas ficámos hospedados no South Campus. Em St Patrik’s funciona o Seminário nacional da Irlanda.

Foi uma experiência muito boa. Ficam as fotos.

 





O meu querido mês de Setembro

28 09 2009

Sara Augusto

 

Irlanda 09

Viajo para poder chegar a lugares que não conheço, a pessoas e a culturas diferentes. Gosto de conhecer os museus, os jardins, deambular pelas ruas, provar as comidas, sorrir e conversar com as pessoas, experimentar costumes que não são os meus. Regresso sempre com boas recordações, novos emails e centenas de fotografias. Mas… há sempre um mas, não é? Detesto, detesto mesmo viajar, fazer e arrastar malas, apanhar comboios e aviões, esperar em aeroportos e estações. Faço um esforço imenso para me abstrair do tempo perdido e do cansaço, mas é difícil.

Depois de um verão a trabalhar, dividi o meu mês de setembro entre um congresso na Irlanda, em Maynooth, a trinta minutos de comboio de Dublin, e outro em Varsóvia. Gostei sobretudo de Dublin, mas o outono dourado em Varsóvia estava lindo.

Apetecia-me descansar agora. Dormir, ler, apanhar sol e aproveitar este verão tardio, mas não posso, ainda. Paciência, minha menina, paciência. 





Em Roma, vê e cala.

29 08 2009

Sara Augusto

 

Ora aqui estão conselhos preciosos! Volto os olhos para a memória e pergunto: fui asseada? Sevandijei-me? Não fiz caso? Tive prudência com os senhores? Cheguei a horas? Comprei os criados? Mostrei-me fofa ou humilde?  De qualquer forma fica dito que cada qual se recomenda pelo que faz. O que é justo.

“Depois de chegar a Roma, cuyde muito em se tratar com aceyo e gravidade lhana, mas não se sevandije. Vizite muito os nacionaes, trate-os com respeyto e diga bem de todos. Existem lá muitos homens de nação que fugirão de cá e se tratão de cavaleiros. Não faça cazo disso, honre-os como vir fazer. Corteje as senhoras porem com grande tento na sua comunicação. Ellas não tem formosura mas participão de hũa graça e afabilidade natural que alimpão as algibeiras insensivelmente no jogo, no passeyo, nas vinhatas e nas operas. Grande prudencia remedea e atalha grandes perigos.

Seja muy pontual em ir vizitar os ministros portuguezes e não se mostre fofo nem humilde; as acçoens de cada qual he a mayor recommendação de cada hum. He precizo ter reconhecimento com os criados das pessoas grandes, como cardeaes etc. E nas festas do anno se lhe costuma dar doze vinteis ou os que cada hum quer, porque desta sorte facilitão a entrada dos amos. O mesmo fará quando for ver algum palacio ou jardim.”

Padre João Baptista de Castro, 1735

 

nAVONA

Imagem daqui.





O furto da capa de seda

27 08 2009

Sara Augusto

 

Num capítulo único, anexo à sua narrativa, o Padre João Baptista de Castro oferece aos possíveis viajantes um conjunto muito interessante de advertências, fruto da sua própria experiência. Ainda existirá em Civitavecchia a Ostiaria della Fortuna junto do Convento de S. Domingos? Ainda existirá o Convento de S. Domingos? Não pergunto pelos ladrões… por ainda lá devem andar. Quanto ao caso do furto da capa de seda não me parece prova suficiente para chamar a justiça  ”zelozissima”… mas, João Baptista de Castro era um homem bem disposto.

“De Civita Vecchia até Roma he jornada de dous dias ou de dia e meyo. Em quanto não partir se pode estar na estalagem, que a melhor neste tempo he a que ficava junto do Convento de S. Domingos, e lhe chamavão a Ostiaria della Fortuna. E por quatro tostoens ou paulos cada dia e às vezes por menos lhe darão bem de comer ao jantar e cea, boa cama e trato, posto que o melhor he aballar quando mais depressa melhor desta terra, porque he muy doentia e não tem muito que ver.

Advirto que em nenhũa terra de Italia achey mais ladroens que nesta, pois os muitos mouros que aqui há não guardão fé a ninguem. Verdade seja que a justiça he zelozissima e castiga severamente a minima queyxa. A mim me furtarão hũa capa de seda com outras bagatellas, mais de gosto que de preço, e fallando eu nisto à ceya muito acazo, certos ministros de Roma, que estavão na mesma estalagem para fazerem hũa inquirição a que vierão, ouvindo-me referir a minha perda, sem me dizerem nada, fizerão de tal modo a diligencia que ao outro dia me restituirão por gallante modo tudo que me havião uzurpado certos esbirros da sua mesma comitiva, e a meus rogos dissimularão o castigo aos delinquentes.”

Padre João Baptista de Castro, 1735.

 

cvecchia

Mapa daqui.





Uma nau chamada Sara

26 08 2009

Sara Augusto

 

Depois de um ano em Roma, tratando dos assuntos de Lourenço Morganti, o Padre João Baptista partiu a 15 de janeiro para Civita Vecchia, embarcou para Génova e daí para Lisboa, numa viagem rápida e sem turbulências.

Para além de ser homem curioso e travesso, também gostava do seu conforto e de uma boa conversa. Passeava pelo meu convés e metia conversa com os marinheiros, ajudando aqui e ali a puxar-me as velas; encostava-se a mim, na amurada, e punha os olhos no poente, saudando as águas do Atlântico. Durante um mês fixei-lhe a voz e o riso, ouvi-lhe as histórias romanas e as de Lisboa também, surpreendi-o nas orações à sombra das minhas velas, comovi-me com as saudades, às vezes de Roma outras vezes do Tejo, e acompanhei-lhe a curiosidade junto do meu leme. Naquela viagem não tive pressa de chegar à ribeira do cais, não tive medo das tempestades, nem do ataque de piratas mouros e o Mediterrâneo tinha um azul ainda mais intenso. No regresso para Génova, abandonando as velas ao vento,  tive vontade de naufragar.

“Em 23 cheguey outra vez a Genova e aqui estive demorado até 22 de fevereiro gastando cada dia cinco tostoens na ostiaria para onde para onde fuy com credito do senhor Cambiaso. He verdade que me trataram muito bem e me dey por bem servido, tendo cinco pratos ao jantar e três à cea, com muito aceyo.

Em 23 de fevereiro parti de Genova em hũa nau inglesa chamada Sara, do capitam Ricardo Barker, ao qual dey seis moedas de ouro, e me trouxe com muita cortezia e tratamento na sua camera, em hum beliche muito limpo, e certamente lhe estou devedor não só da boa attenção que comigo teve, sendo elle protestante e eu Sacerdote Apostolico Romano e Catholico, em que ordinariamente há suas antipatias.”

Padre João Baptista de Castro, 1736.

 





Sapiens versus stultus

21 08 2009

O ir pelo mundo não he a mesma cousa para todos, diz Seneca. Se o homem for sabio, he peregrinação, se for nescio, he desterro. Sapiens peregrinatus, stultus exulat. He peregrinação se for sabio, porque sera para elle a mesma peregrinação estado. Pelo contrario se for nescio, não tirará outro fruto das terras que andar, senão estar fora da patria, e isto propriamente he desterro.

Padre João Baptista de Castro, 1735. 

Dürer, Peregrino, 1494

Albrecht Dürer, 1494

Sara Augusto








Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.