Sara Augusto

Josefa de Óbidos, Adoração dos Pastores
Em uma das portas estava sobre as palhinhas d’uma mangedoura o infante d’então nacido, entre dous animais que o acompanhavam, lavado com lágrimas da maniosa mãe, que deu ao mundo tesouro tão imenso. A noite que foi testemunha e secretária de tão alto mistério se alumiava com uma vela acesa, que o santo Velho tinha na mão, tão propriamente que se embaraçava o juízo de ver no artifício da pintura a claridade do lume retratada e as trevas da escura noite, com as diferenças do claro e escuro que faziam mui aprazíveis a escuridade da noite e o resplandor do lume. Na outra porta, que da parte esquerda respondia a esta, vimos pastores que, postos em vela sobre a guarda de seus rebanhos, foram d’estas boas novas avisados por um mensageiro do claro empírio, que d’elas aos pastores pidiu no mundo as primeiras alvísseras. Estava com a sua claridade tão alumiado todo aquele monte na pintura, como custuma estar o mundo com a luz do Sol resplandecente, e dos pastores qual víamos com o cabritinho recente aos ombros caminhando para o presépio, em que o oferecesse por primeira oferta ao Cordeiro recém-nacido; qual lhe apresentava o tarro de puro leite, qual uma cousa, qual outra dos dões rústicos que tinham em suas malhadas; e todos com as ofertas ofereciam o coração, que as fazia de muita estima ao Menino tenro que, com brando riso, as aceitava por primeira paga, dilatando-lhe para outro tempo a principal.
Lusitânia Transformada, Fernão Álvares do Oriente, 1607.
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