Coisas pastoris

5 02 2010

Sara Augusto

***

Os Campos Elísios, Manuel Quintano de Vasconcelos, 1626 (p. 402, da edição de 1996).

“Eles nem se espantaram dos estremos antigos, nem da mudança nova, por serem estas cousas muito ordinários: em damas a mudança e em amantes o sentimento. E da força que Flerício fazia em publicar seu tormento, entenderam os outros pastores, como experimentados em semelhantes matérias, que duraria esta paixão pouco, porque a mesma rezão tem o sentimento nos amantes que a febre nos doentes, em os quais tem observado os médicos que quanto dá com mais força, mais depressa se acaba, ainda que seja à custa de quem padece”.

Há coisas que me deixam consolada.





Maneirismo

14 12 2009

Sara Augusto

Josefa de Óbidos, Adoração dos Pastores

 

Em uma das portas estava sobre as palhinhas d’uma mangedoura o infante d’então nacido, entre dous animais que o acompanhavam, lavado com lágrimas da maniosa mãe, que deu ao mundo tesouro tão imenso. A noite que foi testemunha e secretária de tão alto mistério se alumiava com uma vela acesa, que o santo Velho tinha na mão, tão propriamente que se embaraçava o juízo de ver no artifício da pintura a claridade do lume retratada e as trevas da escura noite, com as diferenças do claro e escuro que faziam mui aprazíveis a escuridade da noite e o resplandor do lume. Na outra porta, que da parte esquerda respondia a esta, vimos pastores que, postos em vela sobre a guarda de seus rebanhos, foram d’estas boas novas avisados por um mensageiro do claro empírio, que d’elas aos pastores pidiu no mundo as primeiras alvísseras. Estava com a sua claridade tão alumiado todo aquele monte na pintura, como custuma estar o mundo com a luz do Sol resplandecente, e dos pastores qual víamos com o cabritinho recente aos ombros caminhando para o presépio, em que o oferecesse por primeira oferta ao Cordeiro recém-nacido; qual lhe apresentava o tarro de puro leite, qual uma cousa, qual outra dos dões rústicos que tinham em suas malhadas; e todos com as ofertas ofereciam o coração, que as fazia de muita estima ao Menino tenro que, com brando riso, as aceitava por primeira paga, dilatando-lhe para outro tempo a principal.

Lusitânia Transformada, Fernão Álvares do Oriente, 1607.

 

 








Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.