Feliz Natal

23 12 2009

Sara Augusto

Ficam os meus votos para todos: Feliz Natal.

Que não vos deixe indiferentes, aborrecidos com as compras e o stress, confusos com a ementa da consoada, etc… abram o coração a quem está perto, a quem está longe, abram o coração a vós mesmos. É nesse coração, reconciliado consigo mesmo, que o Menino quer nascer.

Saudades de todos.





Maneirismo

14 12 2009

Sara Augusto

Josefa de Óbidos, Adoração dos Pastores

 

Em uma das portas estava sobre as palhinhas d’uma mangedoura o infante d’então nacido, entre dous animais que o acompanhavam, lavado com lágrimas da maniosa mãe, que deu ao mundo tesouro tão imenso. A noite que foi testemunha e secretária de tão alto mistério se alumiava com uma vela acesa, que o santo Velho tinha na mão, tão propriamente que se embaraçava o juízo de ver no artifício da pintura a claridade do lume retratada e as trevas da escura noite, com as diferenças do claro e escuro que faziam mui aprazíveis a escuridade da noite e o resplandor do lume. Na outra porta, que da parte esquerda respondia a esta, vimos pastores que, postos em vela sobre a guarda de seus rebanhos, foram d’estas boas novas avisados por um mensageiro do claro empírio, que d’elas aos pastores pidiu no mundo as primeiras alvísseras. Estava com a sua claridade tão alumiado todo aquele monte na pintura, como custuma estar o mundo com a luz do Sol resplandecente, e dos pastores qual víamos com o cabritinho recente aos ombros caminhando para o presépio, em que o oferecesse por primeira oferta ao Cordeiro recém-nacido; qual lhe apresentava o tarro de puro leite, qual uma cousa, qual outra dos dões rústicos que tinham em suas malhadas; e todos com as ofertas ofereciam o coração, que as fazia de muita estima ao Menino tenro que, com brando riso, as aceitava por primeira paga, dilatando-lhe para outro tempo a principal.

Lusitânia Transformada, Fernão Álvares do Oriente, 1607.

 

 





Isaías 30.20

4 12 2009

Sara Augusto

A gravura que antecede a folha de rosto da Escola de Belém é da autoria de Richard Collin (Richard Collin sculp. Antv.). Desenhador, gravador e geógrafo, nascido no Luxemburgo em 1627 e falecido cerca de 1697, trabalhou na Academia de J. Sandrart e executou quarenta e duas pranchas para as obras do seu mestre. Em seguida estabeleceu-se em Antuérpia, depois em Bruxelas, e recebeu o título de calcógrafo do rei de Espanha, Carlos II. Foi um gravador hábil e fecundo. Não sei ainda se esta gravura do presépio é original ou foi copiada. Contudo, o nome de Richard Collin não era desconhecido no contexto da produção jesuíta. A Vida do Padre Joam d’Almeida da Companhia de Jesu, de Simão de Vasconcelos, publicado em Lisboa, em 1658, vem com um retrato de João de Almeida da autoria deste mesmo gravador.

 

Às figuras que compõem a Lapinha foram acrescentados dísticos tirados das Escrituras, encimada a gravura pela seguinte citação: Erunt oculi tui videntes Praeceptorem tuum (Isaías 30.20). Depois da tarja com o título da obra, segurada por um anjo, sucedem-se os outros dísticos (a partir do canto superior esquerdo), parecendo querer adequar-se a cada uma das personagens ou pormenores do presépio.

Asinus praesepe Domini sui (Isaías I.3) (junto do burro).
Ecce ducem ac praeceptorem…(simplificação de Isaías, 55. 4: Ecce testem populis dedi eum, ducem ac praeceptorem gentibus) (por cima de S. José).
Cognovit bos possessorum suum (Isaías I.3) (por cima da vaca).
Discite a me (Mateus 11.29) (junto da Virgem: aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração).
Ipsum audite (Mateus 17.5) (debaixo da manjedoura com o Menino).
Cognoverunt de Verbo (Lucas, 2.17) (junto do grupo dos pastores).





Alexandre de Gusmão

27 11 2009

Sara Augusto

 

 

Liberal, verdadeiro, cortês, afável, desinteressado, magnânimo, atento às acções, no ânimo constante, sempre no semblante igual, um epílogo de todas as virtudes espirituais e morais; insigne Orador, Mestre querido dos alunos, sábio escritor, unindo-se a nobreza do nascimento com o perfeito estado de melhor Religioso. Foi assim que Nuno Marques Pereira, no seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América, publicado em 1728, falou do Padre Jesuíta Alexandre de Gusmão. Nascido em 1629, aos 10 anos foi com seus pais para o Brasil e ingressou no Colégio da Companhia de Jesus, aos 17. Foi excelente aluno e também um excelente professor, “com particular génio para o governo” (BM, I-95). Entre as diversas funções que tão bem cumpriu, sobretudo nos interessa dar relevo à fundação do Seminário de Belém, na Vila de N.S. do Rosário (Cachoeira, a 14 léguas da Bahia), em 1687. Faleceu neste Seminário em 1724, com 95 anos de idade. 

A fundação deste seminário mostra a evidente preocupação com a formação dos mais novos, mas também o profundo afecto com que venerava o Deus Menino do presépio. A preocupação e o afecto relacionam-se directamente com a publicação da Escola de Bethlem, em Évora, em 1678, obra de meditação com a qual iniciou uma longa produção, marcada pela alegoria enquanto forma favorecedora do seu intuito pedagógico e moral. É esta obra que vai estar exposta no Museu Grão Vasco, emprestado pela secção de livro antigo da Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva.

Constituindo-se como compêndio de lição e meditação, onde se ensinam as vias do amadurecimento espiritual, a Escola de Bethlem deriva de deriva de uma belíssima gravura do Presépio, colocada antes da folha de rosto, assim se instituindo como fonte e inspiração do desenvolvimento de cada capítulo da obra. Da autoria de Richard Collin, um artista nascido no Luxemburgo e com uma produção espalhada por toda a Europa, esta figuração enquadra-se na melhor tradição da literatura emblemática e representativa. Às figuras que compõem a Lapinha foram acrescentados versículos das Escrituras, relacionados com o nascimento do Menino e com cada uma das figuras em particular. É a partir desta figuração, tomando cada figura em particular, e particularizando ainda mais com os adereços de cada uma, que se estrutura a lição e a meditação, servindo cada pormenor de ilustração para as analogias, metáforas e imagens de que abundantemente se constitui este manual de vivência e crescimento espiritual. 

Escola de Belém! É escola porque na lapinha se encontram as lições que permitem passar da Via Purgativa, para a Via Iluminativa, e finalmente para o último estádio de perfeição espiritual, a Via Unitiva. E na humildade do nascimento do Menino, que acarinha e louva com imagens de doçura e adoração, se coloca o próprio Alexandre de Gusmão, eterno discípulo do Menino Mestre.








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