Na Iconologia de Ripa, ou melhor, na Nova Iconologia del Cavalier Cesare Ripa Perugino (1618), reeditada em 2008 por Pierio Buscaroli (Milano, TEA), o emblema da memória aparece com representações distintas. Na segunda descrição (p. 271) diz o seguinte:
Donna con due faccie, vestita di nero, & che tenga nella mano destra una penna, & nella sinistra un libro. La memoria è un dono particolare della natura, & abbracciandosi con essa tutte le cose passate per regola di Prudenza in quelle che hanno à succedere per lo avvenire, si fa con due faccie. Il libro, & la penna dimostrano, come si suol dire, che la memoria con l’uso si perfettiona, il quale uso principalmente consiste, ò nel leggere, è nelle scrivere.
A minha memória está vestida de branco e tem uma das faces constrangida de pena. Perdi o meu diário de Roma. Talvez o tenha apagado sem querer, pensando que já tivesse feito uma cópia ou que já estaria guardado junto do ficheiro das fotografias. Mas não está em lado nenhum. Já perdi horas a correr pastas, uma a uma. Nada.
Restam-me apenas mil e tal fotografias. Mas não é o mesmo. Não vou conseguir lembrar-me de tudo… Esta foi a primeira que tirei em Roma, datada de 16 de Maio, no Vaticano. Era sábado e eu estava ansiosa para sair. Lembro-me que não foi um dia fácil. Tive de reconstruir ruas e praças, limpá-las de recordações antigas. No campo dei fiori comprei um coração de vidro, frágil, luminoso, que aquecia no contacto com a pele. Quando o tocava, num gesto que se tornou habitual, era como se pegasse na mão do meu pequeno Gonçalo e lhe fizesse uma festa. Quando cheguei à noite, depois de caminhar quilómetros, estava exausta, mas estava bem. Tinha passado o primeiro teste.

Sara Augusto
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