Beleza barroca: desmaio, letargo e mágoa

12 02 2010

Sara Augusto

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Padre Mateus Ribeiro, Roda da Fortuna e vida de Carlos e Rosaura, 1724, Parte III, pp. 309-310.

E quem vos disse a vós, meu irmão (respondeu a Religiosa) que essa fermosura que tanto vos cativou, era durável? Bastante é um achaque para desluzi-la, para eclipsá-la e para mudá-la. O encarnado da cor trocou o pálido da enfermidade, as rosas em junquilhos nos desmaios, as safiras dos olhos, que de antes brilhavam como estrelas, converteu em breve tempo a força do mal em letargos profundos, grande pena para quem os passa, grande mágoa para quem os vê. O donaire do brio se converteu em desaire, o garbo em desalinho, o adamado em deslustroso, o sonoro da vez em gemidos enternecidos para penosos, quem compassivo os ouve. Pois se tal assombro causa um acidente, tal estrago executa um sintoma, tal mudança obra um mal, quando se espera menos nos visos da maior beleza, nos aplausos da mais admirável bizarria, deixando só a mágoa do que foi, a vista do desdouro do que é, como árvore despojada da gala mais vistosa de suas flores, com que de antes foi lisonja de primavera em Abril e ludíbrio do tempo em Dezembro. Não vos entristeçais, meu irmão, por chegardes tarde a pretender Jacinta, pois qualquer acidente é poderoso a perturbar toda a fermosura vindo com alçada da morte, ainda que talvez a morte se não siga.

A ler todos os dias coisas destas, é difícil não ter consciência da vanidade das coisas. Vá lá, de quando em quando, até eu esqueço!





Roda da Fortuna: emblemática na época barroca

11 02 2010

Sara Augusto

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Padre Mateus Ribeiro, Roda da Fortuna e vida de Carlos e Rosaura, 1724, Parte III, pp. 21-22:

Vossa mercê, Senhor Alexandre, se mostra em parte da fortuna magoado, mas por outra parte o julgo sem razão queixoso, pois conhecendo o mudável da roda da fortuna, se queixa de a ver mudada, sendo tão natural dela a mudança. Esta bem pode dar a sentir a mágoa, mas não dar a sentir a queixa, pois quem a conhece mais, costuma confiar-se dela menos. Pintava-se este monstruoso prodígio, a quem a antiguidade chamou Fortuna, com duas caras em um só rosto; uma toda alegre e a outra por extremo triste; ũa festiva e outra malencólica; ũa da Primavera mais florida e outra do Inverno mais desabrido, tempestuoso e aborrecido. E por ventura que daqui tomou motivo o insigne Pintor da antiguidade Parrasio Eufesino, tão celebrado pela subtileza de suas obras, para que pintando um ídolo aos Lacedemónios, lhe pintasse o rosto com tal delicadeza, que visto de um lado parecia severo, cruel, ferino e implacável; e visto de outro ledo se mostrava humilde, compassivo, afável e piadoso. Tais consideramos na fortuna estes dous extremos, ũa cara risonha com que tudo lisongea, e outra malencólica com que tudo desengana e arruina. Ocupava-se no perpétuo movimento de ũa roda, a cujo violento impulso todas as honras e dignidades rodavam, não tendo mais perseverança que o que prometer podia o lúbrico de seu ruidoso movimento. Todos ou mais tarde, ou mais cedo dela se publicavam ofendidos; ou porque os lisonjeou tão cedo, ou porque os desenganou tão tarde; porém sem razão manifestavam a queixa; porque felicidades que se sustentam no lúbrico de uma roda, ũa hora que durem, duram muito.

Exemplar!








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