Sara Augusto
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Padre Mateus Ribeiro, Roda da Fortuna e vida de Carlos e Rosaura, 1724, Parte III, pp. 309-310.
E quem vos disse a vós, meu irmão (respondeu a Religiosa) que essa fermosura que tanto vos cativou, era durável? Bastante é um achaque para desluzi-la, para eclipsá-la e para mudá-la. O encarnado da cor trocou o pálido da enfermidade, as rosas em junquilhos nos desmaios, as safiras dos olhos, que de antes brilhavam como estrelas, converteu em breve tempo a força do mal em letargos profundos, grande pena para quem os passa, grande mágoa para quem os vê. O donaire do brio se converteu em desaire, o garbo em desalinho, o adamado em deslustroso, o sonoro da vez em gemidos enternecidos para penosos, quem compassivo os ouve. Pois se tal assombro causa um acidente, tal estrago executa um sintoma, tal mudança obra um mal, quando se espera menos nos visos da maior beleza, nos aplausos da mais admirável bizarria, deixando só a mágoa do que foi, a vista do desdouro do que é, como árvore despojada da gala mais vistosa de suas flores, com que de antes foi lisonja de primavera em Abril e ludíbrio do tempo em Dezembro. Não vos entristeçais, meu irmão, por chegardes tarde a pretender Jacinta, pois qualquer acidente é poderoso a perturbar toda a fermosura vindo com alçada da morte, ainda que talvez a morte se não siga.
A ler todos os dias coisas destas, é difícil não ter consciência da vanidade das coisas. Vá lá, de quando em quando, até eu esqueço!
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