Floridíssimo reino :)

19 03 2010

Sara Augusto

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Porque me vai dar muito gosto e porque me está a dar muito que fazer, e porque gostava que estivessem, apesar de saber que não podem, fica o convite. Um abraço para todos.






Os desmandos de Floriteia

11 03 2010

Sara Augusto

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A revisão do capítulo sobre esta longa novela, ainda inédita e manuscrita, Agravo e desagravo da Misericórdia, tem-me dado que fazer. Está atribuída a Soror Maria do Céu mas eu duvido seriamente da autoria e o manuscrito nem sequer está datado. Isso não impede que seja das minhas novelas barrocas preferidas e que sinta profunda simpatia pela tresloucada Floriteia, moça da alta nobreza italiana, presunçosa e soberba. Num passeio com as amigas, sentadas num prado junto do rio, querendo ser engraçada, saiu-se com estes desmandos sobre as obras de Misericórdia. Por cada desmando foi severamente castigada, durante catorze dias, narrados em catorze capítulos, até cair em si e entender o valor da caridade de cada uma das obras.

Dar de comer a quem tem fome, é fartar gulosos.
Dar de beber a quem tem sede, embebedar vilões.
Dar de vestir aos nus, tomar o ofício a os alfaiates.
Visitar os enfermos, e encarcerados, inquietar os doentes, e tratar com os facinorosos.
Dar pousada aos Perigrinos, encher a casa de ladrões.
Remir os captivos, enrequecer os mouros.
Enterrar os mortos, fazer saudade aos vivos.
Dar bom conselho, é presumpção de entendimento.
Ensinar os ignorantes, encher de malícia a inocência.
Consolar os tristes, deminuir o merecimento de padecer.
Castigar os que erram, agravar o próximo.
Perdoar as injúrias, facilitar insultos.
Sofrer com paciência a fraqueza de nossos próximos, cobardia de ânimo.
Rogar a Deus por vivos e defuntos, arremedar as merceeiras.





Cinzas

17 02 2010

Sara Augusto

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Padre Alexandre de Gusmão, História do Predestinado Peregrino, 1685 (1682), pp. 607:

Enfadados das tribulações do Egipto e dos enganos de seus naturais, como Agarenos ou peregrinos que eram, Predestinado e Precito resolveram deixar a Egipto, que é o mundo, e buscar outra Cidade, para nela fazerem com sua família sua habitação. E consultando nesta matéria suas esposas Rezão e Própria Vontade, sem cujo conselho não davam passo, eis que chegam das escolas os filhos de ambos, referindo as lições que naquele dia aprenderam. Os filhos de Predestinado referiam as excelências que da santa Cidade de Jerusalém apregoavam os Profetas, principalmente referiam aquilo de David, Gloriosa dicta sunt de te, civitas Dei. Os filhos de Precito repetiam as grandezas que de Babilónia referiam as escrituras, e principalmente repetiam muitas vezes o de Isaías, Babylon illa gloriosa. E como estas rezões eram alegadas das intenções e desejos de cada um, não foi necessário mais para se resolverem a deixar o Egipto pela Palestina: Predestinado a fazer sua jornada para Jerusalém, Precito para Babilónia.

Quarenta dias de caminho. Senhor, tem piedade.





Sed libera nos a metaphora…

13 02 2010

Sara Augusto

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Frei Lucas de Santa Catarina, Serão Político, Abuso Emendado, 1704.

Acharás umas Novelas sem figuras de ‘dom’ porque eu não sigo a opinião de que é necessário ter ‘dom’ ũa pessoa para que lhe suceda ũa novela; lá me caiu um entre os dedos contra minha vontade: enfim, deve de ser pecado original das novelas. Não acharás em todas elas figura que faça versos de repente, porque eu não escrevo livro de milagres; querem algũs largos de consciência, que a Poesia repentina seja habilidade, comummente sai parvoíce.
Escrevo entre o rasteiro e o empolado, que são o Scila e Caribdes no vasto mar da locução; algumas vezes me detenho a fazer aguada no espraiado da digressão; mas faço quanto posso por não perder de vista o difícil porto da clareza; com alguma me vou explicando, sed libera nos a metaphora. (Prólogo)

Ao avesso dos outros prólogos, onde desesperadamente se procura justificar a ficção e os seus extremados enredos amorosos, este “sed libera nos a metaphora” deixa-me um longo sorriso nos lábios. Como sempre, sorrio sozinha destas coisas, mas sorrio com muita vontade, sobretudo enquanto ouço Maria Bethância cantar músicas de Vinicius de Morais. Tem tudo a ver…





S. José

9 12 2009

Sara Augusto

 

A Escola de Belém é dedicada a S. José, considerado não só o fundador mas também o primeiro discípulo desta Escola aqui simulada:

Vós fostes o Fundador; porque fostes o que escolhestes aquela Lapinha para o Filho de Deus nascer, compusestes o Presépio, e arrumastes as palhinhas, em que sua Mãe o reclinou, e sustentastes o Mestre com o suor do vosso rosto, por todo o tempo, que nela ensinou. Vós fostes o primeiro discípulo da Escola de Bethlem; porque vós fostes o primeiro depois de sua Mãe, que o adorastes nascido, e que por espaço de quarenta dias, que com ele assististes naquela Lapinha, ouvistes a celestial doutrina, que da cadeira de seu Presépio, com o exemplo mais que com a palavra nos ditou. (Dedicatória) 





Isaías 30.20

4 12 2009

Sara Augusto

A gravura que antecede a folha de rosto da Escola de Belém é da autoria de Richard Collin (Richard Collin sculp. Antv.). Desenhador, gravador e geógrafo, nascido no Luxemburgo em 1627 e falecido cerca de 1697, trabalhou na Academia de J. Sandrart e executou quarenta e duas pranchas para as obras do seu mestre. Em seguida estabeleceu-se em Antuérpia, depois em Bruxelas, e recebeu o título de calcógrafo do rei de Espanha, Carlos II. Foi um gravador hábil e fecundo. Não sei ainda se esta gravura do presépio é original ou foi copiada. Contudo, o nome de Richard Collin não era desconhecido no contexto da produção jesuíta. A Vida do Padre Joam d’Almeida da Companhia de Jesu, de Simão de Vasconcelos, publicado em Lisboa, em 1658, vem com um retrato de João de Almeida da autoria deste mesmo gravador.

 

Às figuras que compõem a Lapinha foram acrescentados dísticos tirados das Escrituras, encimada a gravura pela seguinte citação: Erunt oculi tui videntes Praeceptorem tuum (Isaías 30.20). Depois da tarja com o título da obra, segurada por um anjo, sucedem-se os outros dísticos (a partir do canto superior esquerdo), parecendo querer adequar-se a cada uma das personagens ou pormenores do presépio.

Asinus praesepe Domini sui (Isaías I.3) (junto do burro).
Ecce ducem ac praeceptorem…(simplificação de Isaías, 55. 4: Ecce testem populis dedi eum, ducem ac praeceptorem gentibus) (por cima de S. José).
Cognovit bos possessorum suum (Isaías I.3) (por cima da vaca).
Discite a me (Mateus 11.29) (junto da Virgem: aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração).
Ipsum audite (Mateus 17.5) (debaixo da manjedoura com o Menino).
Cognoverunt de Verbo (Lucas, 2.17) (junto do grupo dos pastores).





Alexandre de Gusmão

27 11 2009

Sara Augusto

 

 

Liberal, verdadeiro, cortês, afável, desinteressado, magnânimo, atento às acções, no ânimo constante, sempre no semblante igual, um epílogo de todas as virtudes espirituais e morais; insigne Orador, Mestre querido dos alunos, sábio escritor, unindo-se a nobreza do nascimento com o perfeito estado de melhor Religioso. Foi assim que Nuno Marques Pereira, no seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América, publicado em 1728, falou do Padre Jesuíta Alexandre de Gusmão. Nascido em 1629, aos 10 anos foi com seus pais para o Brasil e ingressou no Colégio da Companhia de Jesus, aos 17. Foi excelente aluno e também um excelente professor, “com particular génio para o governo” (BM, I-95). Entre as diversas funções que tão bem cumpriu, sobretudo nos interessa dar relevo à fundação do Seminário de Belém, na Vila de N.S. do Rosário (Cachoeira, a 14 léguas da Bahia), em 1687. Faleceu neste Seminário em 1724, com 95 anos de idade. 

A fundação deste seminário mostra a evidente preocupação com a formação dos mais novos, mas também o profundo afecto com que venerava o Deus Menino do presépio. A preocupação e o afecto relacionam-se directamente com a publicação da Escola de Bethlem, em Évora, em 1678, obra de meditação com a qual iniciou uma longa produção, marcada pela alegoria enquanto forma favorecedora do seu intuito pedagógico e moral. É esta obra que vai estar exposta no Museu Grão Vasco, emprestado pela secção de livro antigo da Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva.

Constituindo-se como compêndio de lição e meditação, onde se ensinam as vias do amadurecimento espiritual, a Escola de Bethlem deriva de deriva de uma belíssima gravura do Presépio, colocada antes da folha de rosto, assim se instituindo como fonte e inspiração do desenvolvimento de cada capítulo da obra. Da autoria de Richard Collin, um artista nascido no Luxemburgo e com uma produção espalhada por toda a Europa, esta figuração enquadra-se na melhor tradição da literatura emblemática e representativa. Às figuras que compõem a Lapinha foram acrescentados versículos das Escrituras, relacionados com o nascimento do Menino e com cada uma das figuras em particular. É a partir desta figuração, tomando cada figura em particular, e particularizando ainda mais com os adereços de cada uma, que se estrutura a lição e a meditação, servindo cada pormenor de ilustração para as analogias, metáforas e imagens de que abundantemente se constitui este manual de vivência e crescimento espiritual. 

Escola de Belém! É escola porque na lapinha se encontram as lições que permitem passar da Via Purgativa, para a Via Iluminativa, e finalmente para o último estádio de perfeição espiritual, a Via Unitiva. E na humildade do nascimento do Menino, que acarinha e louva com imagens de doçura e adoração, se coloca o próprio Alexandre de Gusmão, eterno discípulo do Menino Mestre.





Escola de Bethlem

26 11 2009

Sara Augusto

Ocupo-me novamente do manual de meditação do Padre Alexandre de Gusmão, Escola de Bethlem, publicado em Évora, em 1678. Mesmo a propósito, às portas do Advento. No presépio, em cada pormenor, se encontra motivo de crescimento, do arrependimento à perfeição espiritual da via unitiva. Actualizei o texto.

De muitas sortes, e por muitos modos (diz o Apóstolo S. Paulo escrevendo aos Hebreus) falando Deus Nosso Senhor antigamente a nossos Padres em os Profetas, por várias figuras, oráculos e revelações, por último nestes nossos dias nos falou em seu Filho Unigénito feito homem como nós; o qual com sua palavra, vida e exemplo nos ensinou aquela Sabedoria celestial nunca de antes praticada, não a uma só cidade, reino ou nação, como aos Profetas, senão ao mundo todo, como Luz das gentes e Mestre universal de todos; não por figuras, metáforas ou revelações de futuro, senão por exemplo, palavras e milagres manifestos.

E ainda que em toda a sua vida e mistérios de sua santíssima humanidade, nos deu o Senhor claríssimos documentos desta celestial doutrina, porque em todos nos foi Mestre, caminho e vida, contudo no altíssimo e dulcíssimo Mistério de seu santo Nascimento, nos abriu escola pública, donde com o exemplo, como diz S. Bernardo, nos está ensinando aquela doutrina, que pelo discurso de sua vida nos há-de pregar com a palavra: Iam clamat exemplo, quod praedicaturus est verbo; coepit enim Jesus facere et docere; porque as primeiras obras da sua vida foram as primeiras palavras da sua doutrina. (pp. 1-2, Proémio)








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