Sara Augusto
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Porque me vai dar muito gosto e porque me está a dar muito que fazer, e porque gostava que estivessem, apesar de saber que não podem, fica o convite. Um abraço para todos.
Sara Augusto
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Porque me vai dar muito gosto e porque me está a dar muito que fazer, e porque gostava que estivessem, apesar de saber que não podem, fica o convite. Um abraço para todos.
Sara Augusto
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A revisão do capítulo sobre esta longa novela, ainda inédita e manuscrita, Agravo e desagravo da Misericórdia, tem-me dado que fazer. Está atribuída a Soror Maria do Céu mas eu duvido seriamente da autoria e o manuscrito nem sequer está datado. Isso não impede que seja das minhas novelas barrocas preferidas e que sinta profunda simpatia pela tresloucada Floriteia, moça da alta nobreza italiana, presunçosa e soberba. Num passeio com as amigas, sentadas num prado junto do rio, querendo ser engraçada, saiu-se com estes desmandos sobre as obras de Misericórdia. Por cada desmando foi severamente castigada, durante catorze dias, narrados em catorze capítulos, até cair em si e entender o valor da caridade de cada uma das obras.
Dar de comer a quem tem fome, é fartar gulosos. Dar de beber a quem tem sede, embebedar vilões. Dar de vestir aos nus, tomar o ofício a os alfaiates. Visitar os enfermos, e encarcerados, inquietar os doentes, e tratar com os facinorosos. Dar pousada aos Perigrinos, encher a casa de ladrões. Remir os captivos, enrequecer os mouros. Enterrar os mortos, fazer saudade aos vivos. Dar bom conselho, é presumpção de entendimento. Ensinar os ignorantes, encher de malícia a inocência. Consolar os tristes, deminuir o merecimento de padecer. Castigar os que erram, agravar o próximo. Perdoar as injúrias, facilitar insultos. Sofrer com paciência a fraqueza de nossos próximos, cobardia de ânimo. Rogar a Deus por vivos e defuntos, arremedar as merceeiras.
Sara Augusto
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Padre Alexandre de Gusmão, História do Predestinado Peregrino, 1685 (1682), pp. 607:
Enfadados das tribulações do Egipto e dos enganos de seus naturais, como Agarenos ou peregrinos que eram, Predestinado e Precito resolveram deixar a Egipto, que é o mundo, e buscar outra Cidade, para nela fazerem com sua família sua habitação. E consultando nesta matéria suas esposas Rezão e Própria Vontade, sem cujo conselho não davam passo, eis que chegam das escolas os filhos de ambos, referindo as lições que naquele dia aprenderam. Os filhos de Predestinado referiam as excelências que da santa Cidade de Jerusalém apregoavam os Profetas, principalmente referiam aquilo de David, Gloriosa dicta sunt de te, civitas Dei. Os filhos de Precito repetiam as grandezas que de Babilónia referiam as escrituras, e principalmente repetiam muitas vezes o de Isaías, Babylon illa gloriosa. E como estas rezões eram alegadas das intenções e desejos de cada um, não foi necessário mais para se resolverem a deixar o Egipto pela Palestina: Predestinado a fazer sua jornada para Jerusalém, Precito para Babilónia.
Quarenta dias de caminho. Senhor, tem piedade.
Sara Augusto
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Do mesmo Frei Lucas de Santa Catarina, Serão Político, p. 124.
Mas tornando aos Poetas embriões, em cujos papéis se não acha mais que o número seco e o consoante charro, sem mais alma, nem vida, como se se lhe afogaram os conceitos à nascença; há maior fatalidade que vê-los escrever, e vê-los imprimir, sem haver uma alma Cristã que lhe diga, que as trovas não estão obrigadas a fazer tanta bulha como os trovões? Há maior desemparo? Que só a Poesia não tenha Juiz do ofício? Cada um escreve o que quer e assim saem as obras de sua vontade, a furto do entendimento.
Ora, ora.
Sara Augusto
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Frei Lucas de Santa Catarina, Serão Político, Abuso Emendado, 1704.
Acharás umas Novelas sem figuras de ‘dom’ porque eu não sigo a opinião de que é necessário ter ‘dom’ ũa pessoa para que lhe suceda ũa novela; lá me caiu um entre os dedos contra minha vontade: enfim, deve de ser pecado original das novelas. Não acharás em todas elas figura que faça versos de repente, porque eu não escrevo livro de milagres; querem algũs largos de consciência, que a Poesia repentina seja habilidade, comummente sai parvoíce. Escrevo entre o rasteiro e o empolado, que são o Scila e Caribdes no vasto mar da locução; algumas vezes me detenho a fazer aguada no espraiado da digressão; mas faço quanto posso por não perder de vista o difícil porto da clareza; com alguma me vou explicando, sed libera nos a metaphora. (Prólogo)Ao avesso dos outros prólogos, onde desesperadamente se procura justificar a ficção e os seus extremados enredos amorosos, este “sed libera nos a metaphora” deixa-me um longo sorriso nos lábios. Como sempre, sorrio sozinha destas coisas, mas sorrio com muita vontade, sobretudo enquanto ouço Maria Bethância cantar músicas de Vinicius de Morais. Tem tudo a ver…
Sara Augusto
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Padre Mateus Ribeiro, Roda da Fortuna e vida de Carlos e Rosaura, 1724, Parte III, pp. 309-310.
E quem vos disse a vós, meu irmão (respondeu a Religiosa) que essa fermosura que tanto vos cativou, era durável? Bastante é um achaque para desluzi-la, para eclipsá-la e para mudá-la. O encarnado da cor trocou o pálido da enfermidade, as rosas em junquilhos nos desmaios, as safiras dos olhos, que de antes brilhavam como estrelas, converteu em breve tempo a força do mal em letargos profundos, grande pena para quem os passa, grande mágoa para quem os vê. O donaire do brio se converteu em desaire, o garbo em desalinho, o adamado em deslustroso, o sonoro da vez em gemidos enternecidos para penosos, quem compassivo os ouve. Pois se tal assombro causa um acidente, tal estrago executa um sintoma, tal mudança obra um mal, quando se espera menos nos visos da maior beleza, nos aplausos da mais admirável bizarria, deixando só a mágoa do que foi, a vista do desdouro do que é, como árvore despojada da gala mais vistosa de suas flores, com que de antes foi lisonja de primavera em Abril e ludíbrio do tempo em Dezembro. Não vos entristeçais, meu irmão, por chegardes tarde a pretender Jacinta, pois qualquer acidente é poderoso a perturbar toda a fermosura vindo com alçada da morte, ainda que talvez a morte se não siga.
A ler todos os dias coisas destas, é difícil não ter consciência da vanidade das coisas. Vá lá, de quando em quando, até eu esqueço!
Sara Augusto
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Padre Mateus Ribeiro, Roda da Fortuna e vida de Carlos e Rosaura, 1724, Parte III, pp. 21-22:
Vossa mercê, Senhor Alexandre, se mostra em parte da fortuna magoado, mas por outra parte o julgo sem razão queixoso, pois conhecendo o mudável da roda da fortuna, se queixa de a ver mudada, sendo tão natural dela a mudança. Esta bem pode dar a sentir a mágoa, mas não dar a sentir a queixa, pois quem a conhece mais, costuma confiar-se dela menos. Pintava-se este monstruoso prodígio, a quem a antiguidade chamou Fortuna, com duas caras em um só rosto; uma toda alegre e a outra por extremo triste; ũa festiva e outra malencólica; ũa da Primavera mais florida e outra do Inverno mais desabrido, tempestuoso e aborrecido. E por ventura que daqui tomou motivo o insigne Pintor da antiguidade Parrasio Eufesino, tão celebrado pela subtileza de suas obras, para que pintando um ídolo aos Lacedemónios, lhe pintasse o rosto com tal delicadeza, que visto de um lado parecia severo, cruel, ferino e implacável; e visto de outro ledo se mostrava humilde, compassivo, afável e piadoso. Tais consideramos na fortuna estes dous extremos, ũa cara risonha com que tudo lisongea, e outra malencólica com que tudo desengana e arruina. Ocupava-se no perpétuo movimento de ũa roda, a cujo violento impulso todas as honras e dignidades rodavam, não tendo mais perseverança que o que prometer podia o lúbrico de seu ruidoso movimento. Todos ou mais tarde, ou mais cedo dela se publicavam ofendidos; ou porque os lisonjeou tão cedo, ou porque os desenganou tão tarde; porém sem razão manifestavam a queixa; porque felicidades que se sustentam no lúbrico de uma roda, ũa hora que durem, duram muito.
Exemplar!
Sara Augusto
Padre Mateus Ribeiro, Alívio de Tristes, 1688, Parte II, p. 238.
Esta é, discreto peregrino, a relação da minha história, em que fui dilatado, para vos mostrar a variedade, que o mundo faz com suas mudanças, o pouco prémio, que interessa, quem o segue, o como no melhor falta, como só o buscar a Deus é caminho seguro, estrada prateada sem perigos, vida, em que só se vive, paz das almas, descanso do coração, alívio das tristezas, consolação das aflições; porque a maior gentileza dos cavaleiros no correr, consiste em saber airosamente parar.
“Estrada prateada”: uma das mais belas metáforas da literatura exemplar barroca!
Sara Augusto
Fim do Outono. Que pena.
É estranho que o caminho do frio traga consigo tal explosão de cor. E a propósito podia agora discorrer sobre poética barroca e o tema central da efemeridade, onde os cisnem cantam antes da última hora e as rosas fenecem no fim do dia. Não mais amarei senhor que possa morrer. Não mais amarei, ponto final. Pode parecer artificioso, como Sophia não é, mas Gôngora é tão verdadeiramente artificioso.
Mientras por competir con tu cabello, oro bruñido el Sol relumbra en vano, mientras con menosprecio en medio el llano mira tu blanca frente al lilio bello; mientras a cada labio, por cogello, siguen más ojos que al clavel temprano, y mientras triunfa con desdén lozano de el luciente cristal tu gentil cuello; goza cuello, cabello, labio y frente, antes que lo que fue en tu edad dorada oro, lilio, clavel, cristal luciente no solo en plata o víola troncada se vuelva, mas tú y ello juntamente en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
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