Sara Augusto
apontamento para ela (primeira parte)
ela, culpada no tribunal da serpente, desde o princípio dos tempos. ela, cansada de esperar pelo amor em saldo nas esquinas de oportunidades perdidas. ela, que lhe adivinha amantes no batom dos colarinhos e se cala e os passa. ela, cujo ventre é uma cartola mágica de onde salta um e outro e ainda outro filho. ela, repetida lunar entrega leito acima, nos ínfimos milagres da paixão. ela, que lhe promete acreditar em todas as mentiras de amor. ela, quando volta o rosto – para não ser vista a sorrir. ela, a voz curvilínea, as palavras silenciadas, a culpa disparada contra ela própria.
apontamento para ela (segunda parte)
ela das nove às cinco, maquinal, mínima. ela, mascarada de batom, de sombra. ela e a intimidade do lava-loiças, onde a alma se afunda no final de cada dia. ela e as velhas cartas de paixão arquivadas debaixo do pó, a felicidade conjugada no condicional mais do que imperfeito. ela e as deusas de nome proibido, que se chamam kali, a devoradora de homens; hécate, a senhora dos mortos; la llorona, a raptora de recém-nascidos; morgana, a das fadas; pietà, a mãe da morte. ela, uma mera nota no rodapé da vida. ela, a bruxa no poste ardente, a gueixa consentidamente violada. ela, que guarda as lágrimas dos outros no seu corpo. alugado um só instante para si.
mancelos, joão de. línguas de fogo. coimbra: minerva-coimbra, 2001.
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