Le mot juste

21 03 2010

Sara Augusto

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le mot juste

saboreio uma palavra na boca durante horas, em busca de um som para as paisagens da alma. escrevo no desespero do nascituro, escrevo pelo primeiro fôlego do vento, escrevo no espírito prateado de um peixe nas malhas de mim.

tudo serve no labiríntico adn de um poema. as suas construções goticamente curvas – delicadas como a nervura na asa de um insecto ou a tua retina.

é uma espiral de regressos e partidas, semi-fingimentos e meias-verdades, um raiar de rios e veias vegetais por onde o sentido arde. assim é o poeta: um missionário caminhando pé ante pé pelas águas do fogo.

mancelos, joão de. línguas de fogo. coimbra: minerva-coimbra, 2001.





Ela

8 03 2010

Sara Augusto

 

apontamento para ela (primeira parte)

ela, culpada no tribunal da serpente, desde o princípio dos tempos. ela, cansada de esperar pelo amor em saldo nas esquinas de oportunidades perdidas. ela, que lhe adivinha amantes no batom dos colarinhos e se cala e os passa. ela, cujo ventre é uma cartola mágica de onde salta um e outro e ainda outro filho. ela, repetida lunar entrega leito acima, nos ínfimos milagres da paixão. ela, que lhe promete acreditar em todas as mentiras de amor. ela, quando volta o rosto – para não ser vista a sorrir. ela, a voz curvilínea, as palavras silenciadas, a culpa disparada contra ela própria.

apontamento para ela (segunda parte)

ela das nove às cinco, maquinal, mínima. ela, mascarada de batom, de sombra. ela e a intimidade do lava-loiças, onde a alma se afunda no final de cada dia. ela e as velhas cartas de paixão arquivadas debaixo do pó, a felicidade conjugada no condicional mais do que imperfeito. ela e as deusas de nome proibido, que se chamam kali, a devoradora de homens; hécate, a senhora dos mortos; la llorona, a raptora de recém-nascidos; morgana, a das fadas; pietà, a mãe da morte. ela, uma mera nota no rodapé da vida. ela, a bruxa no poste ardente, a gueixa consentidamente violada. ela, que guarda as lágrimas dos outros no seu corpo. alugado um só instante para si.

mancelos, joão de. línguas de fogo. coimbra: minerva-coimbra, 2001.








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