Sara Augusto
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Amanhã vou fazer uma palestra na Universidade Nova de Lisboa. Até há poucos minutos atrás estava preocupada com isso. Sou gaga, nos últimos tempos mais ainda, e isso angustia-me sempre que tenho de falar em público. Preparo as minhas intervenções o mais que posso, prevendo cada palavra que se pode constituir como ruído, transpondo para o powerpoint as ideias que não podem falhar, de modo nenhum. Até há poucos minutos o facto de gaguejar amanhã era a maior das minhas preocupações. Muitos dos dias da minha vida tem sido atormentados por isto. Muitos dos meus piores momentos resultaram deste meu medo. Mesmo algumas das minhas melhores apresentações vieram do trabalho reforçado a que me obriga o facto de não falar como os outros.
Estúpida. Profundamente estúpida que eu sou.
Que sentido tem essa angústia, mínima, quando o Gonçalinho, com as defesas tão em baixo depois da última quimioterapia, apanhou pneumonia? Digo pior as palavras, mas falo com o rosto, com os olhos, com as mãos, como que me der na gana. Mas falo… ao meu pequenino não faltam palavras, naquela voz grave que canta como os anjos. Ao Gonçalinho falta muito mais do que isso.
Amanhã vou levantar-me cedo, apanhar o comboio e falar sobre literatura, sem medos. Com o Gonçalo no meu coração. Com o Gonçalinho no vosso coração.
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