Sara Augusto
Levei para Roma o meu novo notebook quase sem mais nada para além do material necessário à minha investigação sobre as viagens a Roma. Depois de um par de dias já tinha pedido ajuda ao Padre Adriano e ao Padre Hélder que, sempre atenciosos, me encheram a pen de todo o tipo de música, cada um com o seu género preferido. E lá fui definindo a banda sonora para o mp3, enquanto me deslocava de autocarro e deambulava pelas ruas, museus e igrejas, e para as longas horas de trabalho nas bibliotecas. Depois de seis meses ainda é a mesma e eu continuo a andar de comboio e autocarro e a passar dias nas bibliotecas…
E hoje aconteceu o inevitável. Liguei os ascultadores no sítio errado, na entrada para o microfone, coloquei os fones nos ouvidos e deixei que o tema The shepherds, do Marco Frisina, ecoasse altíssimo na minha cabeça. Ecoou alto, mas de forma diferente do costume. Só entendi o que se passava quando senti que todos os olhos, e ouvidos, dos leitores da sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Portugal se tinham virado para mim e ouviam, juntamente comigo, o tema líndissimo dos pastores na adoração do menino recém-nascido… foram momentos gloriosos, nunca vistos, nunca ouvidos!!!
Fiquei vermelha, atrapalhadíssima, sem conseguir baixar o som e acabei por desligar o computador atabalhoadamente e todos os documentos que tinha entretanto aberto. Já está na hora de saída e ainda me olham de lado. Consegui tirar todas as fotocópias do microfilme da Gazeta de Lisboa com notícias sobre a celebração as exéquias de D. João V na sé de Viseu e mais algumas. É melhor prevenir… não sei se para a semana ainda me deixam entrar ou se resolvem cancelar-me o cartão por alguns meses…
E demorei tanto tempo a contar-vos isto que cheguei quatro minutos depois da hora a Santa Apolónia e perdi o comboio. Se não tivesse acordado com um abraço da Inês, a minha sobrinha lisboeta, e encontrado aquele documento precioso nas velhas gavetas onde pesquisei durante tantos anos há tanto tempo, hoje o dia teria sido um poço de estranhas surpresas.
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