Sara Augusto
Fotografia daqui.
Estou irritada. Com a chuva, com o trânsito, com a banda larga móvel que não funciona quando preciso e só me faz perder tempo, com os vizinhos de cima que deixam cair tudo e arrastam mesas e cadeiras de uma forma sobre a qual nem faço comentários… assim, depois de uma manhã para esquecer, com meia hora encravada no trânsito nas ruas alagadas de água, lama e pedras, para tentar resolver o problema da internet, que não resolvi, tomei a decisão certa. Deixei o carro em casa e apanhei o autocarro para a Praça da República.
Até há pouco isto de apanhar autocarros era impensável. Mas Roma fez-me muito bem… dei comigo a sorrir, com um quentinho se saudades no coração, e entretanto deixou de chover. Vamos fazer de Coimbra um bocadinho de Roma??? Grande desafio. Vamos lá!
Cumprimentei toda a gente na paragem, disse um sonoro bom dia ao motorista do 7T e sentei-me ao lado de um avô. E todo o dia mudou com uma sequência de pequenas coisas. Na paragem seguinte estava à espera um velhote com cara bem disposta, apesar do aspecto pesado, dos dois sacos e das duas bengalas em que apoiava. Demorou a entrar, demorou a validar o passe, arrastou-se pelo corredor e sentou-se com todo vagar. O motorista só arrancou quando o viu sentado e sem perigo de cair. É… o dia estava a melhorar, muito! Duas paragens depois, o autocarro parou numa paragem vazia, o motorista abriu as portas e esperou pela senhora vestida de preto que corria de mão no ar. Ela entrou toda em sorrisos e agradecimentos. Na Cruz de Celas entrou uma senhora de gabardine, cachecol de seda e sapatilhas, sem que o conjunto perdesse a elegância distinta que só algumas senhores dos seus setenta anos conseguem manter. Sorri-lhe, claro. Perguntou-me uns segundos depois se nos conhecíamos. Não, não nos conhecemos, mas a senhora é muito elegante, respondi-lhe.
É claro que o dia podia ter ficado ainda melhor se eu não tivesse subido as escadas a que chamam monumentais, as desgraçadas, e quase desfalecido ao chegar ao D. Dinis. Menina, aprende, esquece os saltos altos, pulseiras e colares e tudo o resto, porque nada resiste a este obstáculo final que te deixa a suar por todos os poros, mais morta que viva, entrando derreada pela porta da faculdade. Queres ir lindinha? Vai de madrugada para estacionares o carro a menos de 500m…
Agora, aqui sentada na secretária do meu novo local de trabalho, onde quase ninguém me conhece e me perguntam em que curso estou, consegui descansar um pouco. Tomei um café e até uns raios de sol entram pela vidraça do instituto. Os dias podem ser difíceis, é verdade, mas não vale a pena deixá-los pior com impaciência e irritação.
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