Sara Augusto
Liberal, verdadeiro, cortês, afável, desinteressado, magnânimo, atento às acções, no ânimo constante, sempre no semblante igual, um epílogo de todas as virtudes espirituais e morais; insigne Orador, Mestre querido dos alunos, sábio escritor, unindo-se a nobreza do nascimento com o perfeito estado de melhor Religioso. Foi assim que Nuno Marques Pereira, no seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América, publicado em 1728, falou do Padre Jesuíta Alexandre de Gusmão. Nascido em 1629, aos 10 anos foi com seus pais para o Brasil e ingressou no Colégio da Companhia de Jesus, aos 17. Foi excelente aluno e também um excelente professor, “com particular génio para o governo” (BM, I-95). Entre as diversas funções que tão bem cumpriu, sobretudo nos interessa dar relevo à fundação do Seminário de Belém, na Vila de N.S. do Rosário (Cachoeira, a 14 léguas da Bahia), em 1687. Faleceu neste Seminário em 1724, com 95 anos de idade.
A fundação deste seminário mostra a evidente preocupação com a formação dos mais novos, mas também o profundo afecto com que venerava o Deus Menino do presépio. A preocupação e o afecto relacionam-se directamente com a publicação da Escola de Bethlem, em Évora, em 1678, obra de meditação com a qual iniciou uma longa produção, marcada pela alegoria enquanto forma favorecedora do seu intuito pedagógico e moral. É esta obra que vai estar exposta no Museu Grão Vasco, emprestado pela secção de livro antigo da Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva.
Constituindo-se como compêndio de lição e meditação, onde se ensinam as vias do amadurecimento espiritual, a Escola de Bethlem deriva de deriva de uma belíssima gravura do Presépio, colocada antes da folha de rosto, assim se instituindo como fonte e inspiração do desenvolvimento de cada capítulo da obra. Da autoria de Richard Collin, um artista nascido no Luxemburgo e com uma produção espalhada por toda a Europa, esta figuração enquadra-se na melhor tradição da literatura emblemática e representativa. Às figuras que compõem a Lapinha foram acrescentados versículos das Escrituras, relacionados com o nascimento do Menino e com cada uma das figuras em particular. É a partir desta figuração, tomando cada figura em particular, e particularizando ainda mais com os adereços de cada uma, que se estrutura a lição e a meditação, servindo cada pormenor de ilustração para as analogias, metáforas e imagens de que abundantemente se constitui este manual de vivência e crescimento espiritual.
Escola de Belém! É escola porque na lapinha se encontram as lições que permitem passar da Via Purgativa, para a Via Iluminativa, e finalmente para o último estádio de perfeição espiritual, a Via Unitiva. E na humildade do nascimento do Menino, que acarinha e louva com imagens de doçura e adoração, se coloca o próprio Alexandre de Gusmão, eterno discípulo do Menino Mestre.
E hoje aconteceu o inevitável. Liguei os ascultadores no sítio errado, na entrada para o microfone, coloquei os fones nos ouvidos e deixei que o tema The shepherds, do Marco Frisina, ecoasse altíssimo na minha cabeça. Ecoou alto, mas de forma diferente do costume. Só entendi o que se passava quando senti que todos os olhos, e ouvidos, dos leitores da sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Portugal se tinham virado para mim e ouviam, juntamente comigo, o tema líndissimo dos pastores na adoração do menino recém-nascido… foram momentos gloriosos, nunca vistos, nunca ouvidos!!!
E demorei tanto tempo a contar-vos isto que cheguei quatro minutos depois da hora a Santa Apolónia e perdi o comboio. Se não tivesse acordado com um abraço da Inês, a minha sobrinha lisboeta, e encontrado aquele documento precioso nas velhas gavetas onde pesquisei durante tantos anos há tanto tempo, hoje o dia teria sido um poço de estranhas surpresas.
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