Igreja e República

22 04 2010

Sara Augusto

*

**

Este ano não vou poder estar em S. Cristóvão de Lafões. É um lugar lindo, onde já passei bons tempos, conheci e redescobri pessoas que têm lugar cativo no meu coração. É um lugar de paz e de sabedoria. Votos de bom trabalho para quem puder ir.

VI Encontro Cultural

de

São Cristóvão de Lafões


Igreja e República:Mito(s) e História(s)


Mosteiro de São Cristóvão de Lafões

7 e 8 de Maio de 2010





Le mot juste

21 03 2010

Sara Augusto

*

**

le mot juste

saboreio uma palavra na boca durante horas, em busca de um som para as paisagens da alma. escrevo no desespero do nascituro, escrevo pelo primeiro fôlego do vento, escrevo no espírito prateado de um peixe nas malhas de mim.

tudo serve no labiríntico adn de um poema. as suas construções goticamente curvas – delicadas como a nervura na asa de um insecto ou a tua retina.

é uma espiral de regressos e partidas, semi-fingimentos e meias-verdades, um raiar de rios e veias vegetais por onde o sentido arde. assim é o poeta: um missionário caminhando pé ante pé pelas águas do fogo.

mancelos, joão de. línguas de fogo. coimbra: minerva-coimbra, 2001.





Floridíssimo reino :)

19 03 2010

Sara Augusto

*

**

Porque me vai dar muito gosto e porque me está a dar muito que fazer, e porque gostava que estivessem, apesar de saber que não podem, fica o convite. Um abraço para todos.






Chegou???

17 03 2010

Sara Augusto

*

**

Será mesmo verdade este quentinho de 19 graus que de repente acariciou a cidade? Vim a pé para a faculdade, meia hora de caminho, com vontade de ficar em manga curta num jardim qualquer, a ler o Goor e a ouvir música (o que é o Goor? ainda estou a tentar saber… mas a música é K. Melua, the sailboat, recomendação de um dos meus queridos amigos!!!)

É óbvio que não pude fazê-lo. Tenho D. Francisco Manuel de Melo à minha espera – o que, diga-se, não é nada mau… um dos melhores escritores do barroco português. A ler e a reler. E tenho relatórios para a FCT, sendo que esta é a maior desgraça “num dia assim, de um sol assim”, parafraseando Olavo Bilac (o parnasiano, por favor…).

Não resisti e fui buscar o poema. Como todos os parnasianos, Olavo Bilac, que foi chamado no Brasil o “príncipe dos poetas”, preferiu afeiçoar as pérolas e os requintes da forma. Escapou este poema, pequena (enorme…)  traição à serena “deusa Forma”, sublime patético da contemplação do esvair da vida. Nunca deixei que algum aluno meu o lesse, com receio da falta de entoação e do sentido trágico. Era sempre eu. Raramente cheguei ao fim sem a voz tremer. Subitamente lembra-me alguns poemas de Manuel Bandeira, tão semelhante nesta “delícia da vida”. Hei-de ver disso também. Fico feliz se chegarem ao fim da leitura sem a voz embargada. Já basta uma tola romântica por aqui.

 

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! De um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! Postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados…

E um dia assim! De um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo…

E, aqui dentro, o silêncio… E este espanto! E este medo!
Nós dois… e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais a morte…

Eu com o frio a crescer no coração, — tão cheio
De ti, até no horror do verdadeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!

E eu morrendo! E eu morrendo,
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! A delícia da vida!

 

 





Os desmandos de Floriteia

11 03 2010

Sara Augusto

*

**

A revisão do capítulo sobre esta longa novela, ainda inédita e manuscrita, Agravo e desagravo da Misericórdia, tem-me dado que fazer. Está atribuída a Soror Maria do Céu mas eu duvido seriamente da autoria e o manuscrito nem sequer está datado. Isso não impede que seja das minhas novelas barrocas preferidas e que sinta profunda simpatia pela tresloucada Floriteia, moça da alta nobreza italiana, presunçosa e soberba. Num passeio com as amigas, sentadas num prado junto do rio, querendo ser engraçada, saiu-se com estes desmandos sobre as obras de Misericórdia. Por cada desmando foi severamente castigada, durante catorze dias, narrados em catorze capítulos, até cair em si e entender o valor da caridade de cada uma das obras.

Dar de comer a quem tem fome, é fartar gulosos.
Dar de beber a quem tem sede, embebedar vilões.
Dar de vestir aos nus, tomar o ofício a os alfaiates.
Visitar os enfermos, e encarcerados, inquietar os doentes, e tratar com os facinorosos.
Dar pousada aos Perigrinos, encher a casa de ladrões.
Remir os captivos, enrequecer os mouros.
Enterrar os mortos, fazer saudade aos vivos.
Dar bom conselho, é presumpção de entendimento.
Ensinar os ignorantes, encher de malícia a inocência.
Consolar os tristes, deminuir o merecimento de padecer.
Castigar os que erram, agravar o próximo.
Perdoar as injúrias, facilitar insultos.
Sofrer com paciência a fraqueza de nossos próximos, cobardia de ânimo.
Rogar a Deus por vivos e defuntos, arremedar as merceeiras.





Virtude

9 03 2010

Sara Augusto

*

**

Gosto particularmente deste painel de azulejos. Está no Museu Nacional do Azulejo, da autoria de Manuel dos Santos (c1725), e trata-se da “Alegoria da virtude calcando um vício”. Gosto do rosto da Virtude e da descompostura do Vício. Aquele ar tranquilo, quase displicente, faz parecer tudo tão fácil, não é? Por detrás do poste de madeira, a que se apoia a Virtude, não estão os olhos da cauda de um pavão?





Ela

8 03 2010

Sara Augusto

 

apontamento para ela (primeira parte)

ela, culpada no tribunal da serpente, desde o princípio dos tempos. ela, cansada de esperar pelo amor em saldo nas esquinas de oportunidades perdidas. ela, que lhe adivinha amantes no batom dos colarinhos e se cala e os passa. ela, cujo ventre é uma cartola mágica de onde salta um e outro e ainda outro filho. ela, repetida lunar entrega leito acima, nos ínfimos milagres da paixão. ela, que lhe promete acreditar em todas as mentiras de amor. ela, quando volta o rosto – para não ser vista a sorrir. ela, a voz curvilínea, as palavras silenciadas, a culpa disparada contra ela própria.

apontamento para ela (segunda parte)

ela das nove às cinco, maquinal, mínima. ela, mascarada de batom, de sombra. ela e a intimidade do lava-loiças, onde a alma se afunda no final de cada dia. ela e as velhas cartas de paixão arquivadas debaixo do pó, a felicidade conjugada no condicional mais do que imperfeito. ela e as deusas de nome proibido, que se chamam kali, a devoradora de homens; hécate, a senhora dos mortos; la llorona, a raptora de recém-nascidos; morgana, a das fadas; pietà, a mãe da morte. ela, uma mera nota no rodapé da vida. ela, a bruxa no poste ardente, a gueixa consentidamente violada. ela, que guarda as lágrimas dos outros no seu corpo. alugado um só instante para si.

mancelos, joão de. línguas de fogo. coimbra: minerva-coimbra, 2001.





Cinzas

17 02 2010

Sara Augusto

***

Padre Alexandre de Gusmão, História do Predestinado Peregrino, 1685 (1682), pp. 607:

Enfadados das tribulações do Egipto e dos enganos de seus naturais, como Agarenos ou peregrinos que eram, Predestinado e Precito resolveram deixar a Egipto, que é o mundo, e buscar outra Cidade, para nela fazerem com sua família sua habitação. E consultando nesta matéria suas esposas Rezão e Própria Vontade, sem cujo conselho não davam passo, eis que chegam das escolas os filhos de ambos, referindo as lições que naquele dia aprenderam. Os filhos de Predestinado referiam as excelências que da santa Cidade de Jerusalém apregoavam os Profetas, principalmente referiam aquilo de David, Gloriosa dicta sunt de te, civitas Dei. Os filhos de Precito repetiam as grandezas que de Babilónia referiam as escrituras, e principalmente repetiam muitas vezes o de Isaías, Babylon illa gloriosa. E como estas rezões eram alegadas das intenções e desejos de cada um, não foi necessário mais para se resolverem a deixar o Egipto pela Palestina: Predestinado a fazer sua jornada para Jerusalém, Precito para Babilónia.

Quarenta dias de caminho. Senhor, tem piedade.





Poetas embriões

13 02 2010

Sara Augusto

***

Do mesmo Frei Lucas de Santa Catarina, Serão Político, p. 124.

Mas tornando aos Poetas embriões, em cujos papéis se não acha mais que o número seco e o consoante charro, sem mais alma, nem vida, como se se lhe afogaram os conceitos à nascença; há maior fatalidade que vê-los escrever, e vê-los imprimir, sem haver uma alma Cristã que lhe diga, que as trovas não estão obrigadas a fazer tanta bulha como os trovões? Há maior desemparo? Que só a Poesia não tenha Juiz do ofício? Cada um escreve o que quer e assim saem as obras de sua vontade, a furto do entendimento.

Ora, ora.





Sed libera nos a metaphora…

13 02 2010

Sara Augusto

***

Frei Lucas de Santa Catarina, Serão Político, Abuso Emendado, 1704.

Acharás umas Novelas sem figuras de ‘dom’ porque eu não sigo a opinião de que é necessário ter ‘dom’ ũa pessoa para que lhe suceda ũa novela; lá me caiu um entre os dedos contra minha vontade: enfim, deve de ser pecado original das novelas. Não acharás em todas elas figura que faça versos de repente, porque eu não escrevo livro de milagres; querem algũs largos de consciência, que a Poesia repentina seja habilidade, comummente sai parvoíce.
Escrevo entre o rasteiro e o empolado, que são o Scila e Caribdes no vasto mar da locução; algumas vezes me detenho a fazer aguada no espraiado da digressão; mas faço quanto posso por não perder de vista o difícil porto da clareza; com alguma me vou explicando, sed libera nos a metaphora. (Prólogo)

Ao avesso dos outros prólogos, onde desesperadamente se procura justificar a ficção e os seus extremados enredos amorosos, este “sed libera nos a metaphora” deixa-me um longo sorriso nos lábios. Como sempre, sorrio sozinha destas coisas, mas sorrio com muita vontade, sobretudo enquanto ouço Maria Bethância cantar músicas de Vinicius de Morais. Tem tudo a ver…








Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.