Sara Augusto
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Será mesmo verdade este quentinho de 19 graus que de repente acariciou a cidade? Vim a pé para a faculdade, meia hora de caminho, com vontade de ficar em manga curta num jardim qualquer, a ler o Goor e a ouvir música (o que é o Goor? ainda estou a tentar saber… mas a música é K. Melua, the sailboat, recomendação de um dos meus queridos amigos!!!)
É óbvio que não pude fazê-lo. Tenho D. Francisco Manuel de Melo à minha espera – o que, diga-se, não é nada mau… um dos melhores escritores do barroco português. A ler e a reler. E tenho relatórios para a FCT, sendo que esta é a maior desgraça “num dia assim, de um sol assim”, parafraseando Olavo Bilac (o parnasiano, por favor…).
Não resisti e fui buscar o poema. Como todos os parnasianos, Olavo Bilac, que foi chamado no Brasil o “príncipe dos poetas”, preferiu afeiçoar as pérolas e os requintes da forma. Escapou este poema, pequena (enorme…) traição à serena “deusa Forma”, sublime patético da contemplação do esvair da vida. Nunca deixei que algum aluno meu o lesse, com receio da falta de entoação e do sentido trágico. Era sempre eu. Raramente cheguei ao fim sem a voz tremer. Subitamente lembra-me alguns poemas de Manuel Bandeira, tão semelhante nesta “delícia da vida”. Hei-de ver disso também. Fico feliz se chegarem ao fim da leitura sem a voz embargada. Já basta uma tola romântica por aqui.
Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! De um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! Postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados…
E um dia assim! De um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo…
E, aqui dentro, o silêncio… E este espanto! E este medo!
Nós dois… e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais a morte…
Eu com o frio a crescer no coração, — tão cheio
De ti, até no horror do verdadeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!
E eu morrendo! E eu morrendo,
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! A delícia da vida!
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