Maiores do que os anjos

31 03 2010

Sara Augusto

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Seja feita a tua vontade.

Quando rezamos o Pai Nosso com consciência de cada palavra que dizemos, também pesamos o sentido mais fundo de cada uma. Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu. Deve ser fácil fazer a vontade de Deus no céu, onde os anjos se inclinam perante a suprema beleza, a infinita bondade da misericórdia, onde já não existe dor, nem a ténue linha que separa a vida da morte.

Difícil mesmo é fazer a vontade de Deus na terra, quando na sombra não conhecemos o sentido da sua vontade. Mas não conhecemos nós o seu amor? Não deveria este conhecimento suplantar as nossas dúvidas e a nossa incapacidade de aceitar? Não falo de aceitar a vontade de Deus, que não conhecemos, mas de aceitar o que está diante dos nossos olhos, a nossa condição humana, efémera, tão frágil como as flores da cerejeira, as asas da andorinha e os filhotes do urso polar. E ainda assim, sermos capazes de ultrapassar essa consciência, que de tão avassaladora podia parar qualquer acto e pensamento, e podermos experimentar plenamente a gloriosa dádiva da inteligência, da generosidade, da justiça, do perdão, do amor, da vida.

Que seja feita a tua vontade, meu Deus querido. Que nos amemos uns aos outros, como Tu nos amaste. E tudo será cumprido.





Domingo de Ramos

29 03 2010

Sara Augusto

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Domingo de ramos, domingo de flores, domingo de alecrim, domingo de sol, domingo de meninos no baloiço, domingo de almoço em família, domingo de passeio pelos campos, domingo de terço na capela, domingo de esperança, domingo de paz.





Não sabes nada…

25 03 2010

Sara Augusto

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Sentou-se ao meu lado no comboio, sem largar os sacos e a carteira que apertava contra si. Miudinha, cabelo quase loiro, frisado, frágil. Tinha o lábio superior ferido, os olhos vermelhos, congestionados. Passado pouco tempo, depois de Vila Franca, adormeceu. Deixou descair os sacos e ouvi-a respirar fundo. Continuei com o meu livro, vendo o rio no cair do dia, mp3 com Yann Tiersen, um piano a tocar baixinho, nostálgico, melancólico.

Senti que ela se mexia, e vi-lhe as mãos entrelaçadas uma na outra, com tanta força que os dedos perdiam a cor. Ouvi-a gemer e murmurar qualquer coisa. Pareceu-me que dizia que não. Que não… e a cabeça oscilava como se fugisse, como se tentasse escapar a alguma coisa que a atingia, protegendo-se com as mãos.  Numa altura em que as pousou no colo, peguei nelas devagar e aconcheguei-as nas minhas, sem saber o que mais fazer na aflição dela.

Saía com os amigos, ou sozinho se calhar… e quando chegava a casa já tinha sempre bebido demais. Batia com a porta, dava pontapés no aparador, no sofá, no que encontrava pela frente. Quando encarava com ela, já não distinguia mais nada e não havia lugar em que se sentisse segura. Tentava não reagir. Enrolava-se em si mesma, tentando proteger a cabeça e o colo, e não gritava, nunca. Ele acabava por desabar no sofá ou na cama, inerte.

Não foi com estas palavras que ela me contou os seus dias, entre soluços cortados e fundos. Mas foram estas as imagens que me ficaram. Senti-me pesada, com vontade de me diluir no chão da carruagem e desistir de ser gente. Fugiu? Fugi. Para onde vai? Tenho uma amiga de há muito tempo, andámos juntas na escola, ele não sabe dela, não saberá de mim.

Reuniu os sacos, sorriu com o lábio magoado e os cabelos quase loiros e saiu na paragem seguinte. Acenei-lhe. No cais já não me pareceu tão frágil. Pareceu-me livre. A liberdade torna-nos maiores.





O sentido das coisas

24 03 2010

Sara Augusto

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Amanhã vou fazer uma palestra na Universidade Nova de Lisboa. Até há poucos minutos atrás estava preocupada com isso. Sou gaga, nos últimos tempos mais ainda, e isso angustia-me sempre que tenho de falar em público. Preparo as minhas intervenções o mais que posso, prevendo cada palavra que se pode constituir como ruído, transpondo para o powerpoint as ideias que não podem falhar, de modo nenhum. Até há poucos minutos o facto de gaguejar amanhã era a maior das minhas preocupações. Muitos dos dias da minha vida tem sido atormentados por isto. Muitos dos meus piores momentos resultaram deste meu medo. Mesmo algumas das minhas melhores apresentações vieram do trabalho reforçado a que me obriga o facto de não falar como os outros.

Estúpida. Profundamente estúpida que eu sou.

Que sentido tem essa angústia, mínima, quando o Gonçalinho, com as defesas tão em baixo depois da última quimioterapia, apanhou pneumonia? Digo pior as palavras, mas falo com o rosto, com os olhos, com as mãos, como que me der na gana. Mas falo… ao meu pequenino não faltam palavras, naquela voz grave que canta como os anjos. Ao Gonçalinho falta muito mais do que isso.

Amanhã vou levantar-me cedo, apanhar o comboio e falar sobre literatura, sem medos. Com o Gonçalo no meu coração. Com o Gonçalinho no vosso coração.





Le mot juste

21 03 2010

Sara Augusto

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le mot juste

saboreio uma palavra na boca durante horas, em busca de um som para as paisagens da alma. escrevo no desespero do nascituro, escrevo pelo primeiro fôlego do vento, escrevo no espírito prateado de um peixe nas malhas de mim.

tudo serve no labiríntico adn de um poema. as suas construções goticamente curvas – delicadas como a nervura na asa de um insecto ou a tua retina.

é uma espiral de regressos e partidas, semi-fingimentos e meias-verdades, um raiar de rios e veias vegetais por onde o sentido arde. assim é o poeta: um missionário caminhando pé ante pé pelas águas do fogo.

mancelos, joão de. línguas de fogo. coimbra: minerva-coimbra, 2001.





Floridíssimo reino :)

19 03 2010

Sara Augusto

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Porque me vai dar muito gosto e porque me está a dar muito que fazer, e porque gostava que estivessem, apesar de saber que não podem, fica o convite. Um abraço para todos.






Chegou???

17 03 2010

Sara Augusto

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Será mesmo verdade este quentinho de 19 graus que de repente acariciou a cidade? Vim a pé para a faculdade, meia hora de caminho, com vontade de ficar em manga curta num jardim qualquer, a ler o Goor e a ouvir música (o que é o Goor? ainda estou a tentar saber… mas a música é K. Melua, the sailboat, recomendação de um dos meus queridos amigos!!!)

É óbvio que não pude fazê-lo. Tenho D. Francisco Manuel de Melo à minha espera – o que, diga-se, não é nada mau… um dos melhores escritores do barroco português. A ler e a reler. E tenho relatórios para a FCT, sendo que esta é a maior desgraça “num dia assim, de um sol assim”, parafraseando Olavo Bilac (o parnasiano, por favor…).

Não resisti e fui buscar o poema. Como todos os parnasianos, Olavo Bilac, que foi chamado no Brasil o “príncipe dos poetas”, preferiu afeiçoar as pérolas e os requintes da forma. Escapou este poema, pequena (enorme…)  traição à serena “deusa Forma”, sublime patético da contemplação do esvair da vida. Nunca deixei que algum aluno meu o lesse, com receio da falta de entoação e do sentido trágico. Era sempre eu. Raramente cheguei ao fim sem a voz tremer. Subitamente lembra-me alguns poemas de Manuel Bandeira, tão semelhante nesta “delícia da vida”. Hei-de ver disso também. Fico feliz se chegarem ao fim da leitura sem a voz embargada. Já basta uma tola romântica por aqui.

 

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! De um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! Postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados…

E um dia assim! De um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo…

E, aqui dentro, o silêncio… E este espanto! E este medo!
Nós dois… e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais a morte…

Eu com o frio a crescer no coração, — tão cheio
De ti, até no horror do verdadeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!

E eu morrendo! E eu morrendo,
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! A delícia da vida!

 

 





Louvor “sarífico”

17 03 2010

Quantas surpresas e quantas descobertas ao longo destes meses de navegação! Quantos sorrisos provocaste, quantas emoções assinaste!

Parabéns, querida amiga Sara. Se chegámos aos 100 é somente porque tu acreditaste. Para ti todo o mérito e todo o reconhecimento. Como diria o P. Jonas: “Quem luta nem sempre ganha, mas quem não luta perde sempre”.

O rumo traçado no sonho inicial não era bem este, mas quem poderá prever a força das marés e o rugido das ondas? Para vencer a instabilidade da realidade é necessário uma grande dose de sabedoria… Apesar de tudo, aqui está o “in limina” a servir de pólo unificador entre aqueles que o tempo separou.

O leme é teu, Sara! Não tenhas medo deste mar, que ao mesmo tempo que separa também une. Jamais estarás sozinha. Estamos todos contigo. Ainda que a maior parte do tempo em silêncio.

Louvo a tua persistência, o teu espírito de decisão e a tua coragem. Rumo aos 200! Podes contar comigo.





Cem

16 03 2010

Sara Augusto

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O último texto foi o número cem. Em tempos que já lá vão, quando eu estudava na escola secundária, a aula número cem era sempre motivo de festejo. Nem sei porque me lembrei agora disso, das aulas e das festa número cem. Voltando ao assunto: texto número cem. Destes cem, escrevi 79. Foram 79 textos meus e imagens, sobre as mais desvairadas coisas, mas sobretudo sobre Literatura que é aquilo de que sei mais um bocadito.

Voltei a ler as entradas iniciais, do Padre Adriano, do Padre Giselo, do Padre António Saldanha, e reli muitos do Padre Luís Miguel. Não sei muito bem o que foi que aconteceu ao projecto inicial. Era um projecto colectivo. De alguma forma, suponho que ainda seja, mas não da forma como foi pensado. Muitas vezes, quando chego aqui, apetece-me não escrever. Entre o facebook e outros projectos individuais, o tempo não estica. Mas faz-me falta alimentar a memória, que eu não quero ver apagada nunca, nenhum pormenor, detalhe, cor, sorriso, manhã ou noite.

Sempre fui assim. Insisto nas coisas de que gosto. Nem sempre deu bom resultado, porque o gosto raramente tem lucidez suficiente, e já insisti em projectos que tinham deixado de fazer sentido, e eu não vi, não entendi, não percebi, nem ninguém me avisou.

Gosto muito deste espaço. Gosto de falar da literatura que leio, que conheço, que estudo, das viagens, e de muitas outras coisas. Mas gostava que me avisassem. Os meus espaços no mundo virtual e no outro já são solitários que cheguem. Não me importo e gosto. Mas preferia que não fosse assim pelo menos no diz respeito ao In Limina.

Parabéns pelo número cem e pelos nove meses de vida. Um abraço para todos.

P.S. A foto foi tirado no dia 16 de Maio de 2009. Passei por li quase todos os dias que estive em Roma.





15 03 2010

Sara Augusto

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Vigília de Oração Arciprestal – Mourilhe

12 de Março, 21h, Largo e Capela


ACOLHER A CRUZ

Eu conheço a tua miséria, as tuas tribulações, a fraqueza e as tuas limitações… Conheço os teus pecados, as tuas quedas, mas ainda assim, dá‐me o teu coração! Ama‐me como tu és. Se esperas ser um “anjo” para te abrires ao amor, não me amarás nunca!
Mesmo que caias muitas vezes naquelas faltas que querias nunca conhecer, Eu não permito que tu não me ames. Ama‐me como tu és: em cada instante, em cada situação que te encontres, no teu dia‐a‐dia, na relação com os outros, no trabalho, no estudo… Sê tu mesmo, e ama‐me assim.
Ama‐me como tu és! Quero o amor do teu coração indigente. Se para me amares esperas ser perfeito, tu nunca me amarás.
Quero formar‐te, mas esperando a tua resposta, pois Eu amo‐te como tu és e desejo que faças da mesma maneira. Quero ver brotar o amor do fundo da tua miséria, do teu coração. Amo em ti tudo, até a fraqueza. Gosto do amor dos pobres e quero que da indigência se levante continuamente este grito: Pai! Eu amo‐Te! Quero que hoje brote do teu coração: Amo‐te tal qual sou…! Que devo fazer?

Pega na tua cruz e segue-me.









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