Alexandre de Gusmão

27 11 2009

Sara Augusto

 

 

Liberal, verdadeiro, cortês, afável, desinteressado, magnânimo, atento às acções, no ânimo constante, sempre no semblante igual, um epílogo de todas as virtudes espirituais e morais; insigne Orador, Mestre querido dos alunos, sábio escritor, unindo-se a nobreza do nascimento com o perfeito estado de melhor Religioso. Foi assim que Nuno Marques Pereira, no seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América, publicado em 1728, falou do Padre Jesuíta Alexandre de Gusmão. Nascido em 1629, aos 10 anos foi com seus pais para o Brasil e ingressou no Colégio da Companhia de Jesus, aos 17. Foi excelente aluno e também um excelente professor, “com particular génio para o governo” (BM, I-95). Entre as diversas funções que tão bem cumpriu, sobretudo nos interessa dar relevo à fundação do Seminário de Belém, na Vila de N.S. do Rosário (Cachoeira, a 14 léguas da Bahia), em 1687. Faleceu neste Seminário em 1724, com 95 anos de idade. 

A fundação deste seminário mostra a evidente preocupação com a formação dos mais novos, mas também o profundo afecto com que venerava o Deus Menino do presépio. A preocupação e o afecto relacionam-se directamente com a publicação da Escola de Bethlem, em Évora, em 1678, obra de meditação com a qual iniciou uma longa produção, marcada pela alegoria enquanto forma favorecedora do seu intuito pedagógico e moral. É esta obra que vai estar exposta no Museu Grão Vasco, emprestado pela secção de livro antigo da Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva.

Constituindo-se como compêndio de lição e meditação, onde se ensinam as vias do amadurecimento espiritual, a Escola de Bethlem deriva de deriva de uma belíssima gravura do Presépio, colocada antes da folha de rosto, assim se instituindo como fonte e inspiração do desenvolvimento de cada capítulo da obra. Da autoria de Richard Collin, um artista nascido no Luxemburgo e com uma produção espalhada por toda a Europa, esta figuração enquadra-se na melhor tradição da literatura emblemática e representativa. Às figuras que compõem a Lapinha foram acrescentados versículos das Escrituras, relacionados com o nascimento do Menino e com cada uma das figuras em particular. É a partir desta figuração, tomando cada figura em particular, e particularizando ainda mais com os adereços de cada uma, que se estrutura a lição e a meditação, servindo cada pormenor de ilustração para as analogias, metáforas e imagens de que abundantemente se constitui este manual de vivência e crescimento espiritual. 

Escola de Belém! É escola porque na lapinha se encontram as lições que permitem passar da Via Purgativa, para a Via Iluminativa, e finalmente para o último estádio de perfeição espiritual, a Via Unitiva. E na humildade do nascimento do Menino, que acarinha e louva com imagens de doçura e adoração, se coloca o próprio Alexandre de Gusmão, eterno discípulo do Menino Mestre.





Escola de Bethlem

26 11 2009

Sara Augusto

Ocupo-me novamente do manual de meditação do Padre Alexandre de Gusmão, Escola de Bethlem, publicado em Évora, em 1678. Mesmo a propósito, às portas do Advento. No presépio, em cada pormenor, se encontra motivo de crescimento, do arrependimento à perfeição espiritual da via unitiva. Actualizei o texto.

De muitas sortes, e por muitos modos (diz o Apóstolo S. Paulo escrevendo aos Hebreus) falando Deus Nosso Senhor antigamente a nossos Padres em os Profetas, por várias figuras, oráculos e revelações, por último nestes nossos dias nos falou em seu Filho Unigénito feito homem como nós; o qual com sua palavra, vida e exemplo nos ensinou aquela Sabedoria celestial nunca de antes praticada, não a uma só cidade, reino ou nação, como aos Profetas, senão ao mundo todo, como Luz das gentes e Mestre universal de todos; não por figuras, metáforas ou revelações de futuro, senão por exemplo, palavras e milagres manifestos.

E ainda que em toda a sua vida e mistérios de sua santíssima humanidade, nos deu o Senhor claríssimos documentos desta celestial doutrina, porque em todos nos foi Mestre, caminho e vida, contudo no altíssimo e dulcíssimo Mistério de seu santo Nascimento, nos abriu escola pública, donde com o exemplo, como diz S. Bernardo, nos está ensinando aquela doutrina, que pelo discurso de sua vida nos há-de pregar com a palavra: Iam clamat exemplo, quod praedicaturus est verbo; coepit enim Jesus facere et docere; porque as primeiras obras da sua vida foram as primeiras palavras da sua doutrina. (pp. 1-2, Proémio)





Mestre

25 11 2009

Sara Augusto

 

 

Foi no âmbito das primeiras jornadas aclusianas (Aclus: Associação de Cultura Lusófona), subordinadas ao tema Razão e Fé: Diálogo (Im)possível, que se celebraram os oitentas anos do Professor Fernando Cristóvão.

Na Sala de Mestrados da FLUL ouviram-se reflexões, aplausos e cantaram-se os parabéns com um delicioso bolo de chocolate. Pela segunda vez neste blogue, mas com uma fotografia bem melhor, querido professor, os meus parabéns!





Que farei quando tudo arde?

24 11 2009

Sara Augusto 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

Gastão Cruz, As Aves

 





Início do Ministério na paróquia de N.S. do Monte

12 11 2009

Recebendo os Evangelhos Quebro o silêncio (involuntário) destas ultimas semanas para partilhar convosco um momento significativo da minha vida: a celebração da tomada de posse da Paróquia de Nossa Senhora do Monte (dia 10 Outubro). Já passou um mês mas parece que foi ontem.

Muitos outros acontecimentos queria eu apresentar, mas penso que este momento, merece a prioridade pois é o Génesis daquilo que espero ser uma bela história.

Eis um extracto do discurso que dirigi ao Sr. Bispo do Funchal, aos irmãos sacerdotes e à comunidade paroquial.

 

«Hoje, apresento-me perante vós em nome de Jesus Cristo e da sua Igreja, com o mandato de vos anunciar o Evangelho e dispensar as graças e bênçãos, que Deus e sua Mãe Maria Santíssima, Senhora do Monte e nossa Padroeira, têm reservadas para nós. Através dos sacramentos, principalmente a Eucaristia, e através do testemunho de vida sacerdotal, é Jesus, único e verdadeiro sacerdote, que edifica e guia esta comunidade na vida presente rumo á morada eterna.

Gostaria de ligar esta nomeação pastoral a outro acontecimento da minha vida: a ordenação sacerdotal.

No dia da ordenação, há quatro anos atrás, confiei a minha vida e as minhas forças a Jesus Cristo, Palavra de Deus viva e eficaz, que tudo transforma, redime e salva. Nessa altura pude afirmar: “Eis-me aqui…eu venho, Ó Deus, para fazer a vossa Vontade” (Heb 10, 7). A vontade de Deus, declarada através do Sr. Bispo é que eu agora seja o guia desta comunidade. Bendito seja Deus pelos séculos por este dom imenso que é o sacerdócio!

O mesmo Jesus que me chamou, continua a renovar em cada dia esse dom, concedendo-me uma profunda alegria, paz e felicidade. Vivo com os mesmos sentimentos do dia da ordenação, celebro a eucaristia com a mesma intensidade da primeira.

«Em verdade vos digo: Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos e irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do evangelho receberá cem vezes mais já neste mundo… juntamente com perseguições e no mundo futuro a vida eterna!» (Mc 10, 29). Jesus promete e cumpre de imediato no dia da ordenação. O que valem as perseguições em comparação á vida eterna (Cf. Rom 8,18)?

Esta é a verdadeira sabedoria que Deus concede aos seus filhos mas que aos olhos do mundo não passa de loucura. Amar a Deus, acreditar no seu filho Jesus, fazer o bem ao próximo! Nisto consiste a sabedoria.

O Beato Carlos de Áustria, cujo túmulo se encontra entre nós e que constitui para nós um constante apelo à santidade é testemunha desta sabedoria que leva ao esquecimento de si para realizar em tudo os desígnios de Deus, supremo Rei dos Reis. Nele podemos ouvir este passo da Escritura: “Orei e foi-me dada a prudência, implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos ceptros e tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada…Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis» (Sb 7,7.11)

Aos pés de Maria, Nossa Senhora do Monte coloco o meu ministério pastoral, nesta comunidade paroquial do Monte, na certeza de ser atendido nas orações, protegido nas adversidades e consolado em todas as situações. Amem!

 





Professor Fernando Cristóvão

8 11 2009

Sara Augusto

 

 

Conheci o Professor Fernando Cristóvão em fins de Setembro de 1991. Tinha acabado a licenciatura, desistira do estágio profissional e começava a minha carreira como assistente estagiária na Universidade Católica. Uma das cadeiras em que trabalharia era Literatura Brasileira, coordenada pela Professora Maria Aparecida Ribeiro. Lembro-me tão bem das palavras dela, com o seu sotaque fluminense, falando comigo ao telefone: “Menina, já falei com o Fernando Cristóvão e ele está te esperando na Faculdade de Letras para a entrevista do mestrado”. Cheguei a Lisboa assustadíssima, sem saber onde estava, como se chegava à Faculdade ou sequer o que era Entrecampos ou Campo Grande. Na entrevista, onde também estava o Professor Alberto Carvalho, pouco disse de mim. Acabada de licenciar, com nota mais do que suficiente, apenas falei da minha vontade de saber mais de uma das matérias que mais tinha gostado durante todo o curso. Aceitaram-me, pelo que percebi. E saí disparada, trocando uma nota de mil escudos em moedas de cinquenta, para uma cabine de telefone. No meio dos meus soluços, a minha querida Aparecida Ribeiro não sabia como animar-me. Eu não queria ir todas as semanas dois dias para Lisboa, não queria… mas fui, quase durante quatro anos, o tempo que os mestrados duravam quando ainda eram mestrados.

Foi nessa entrevista que conheci o Professor Cristóvão, que acabou por ser meu orientador de tese, de vários outras trabalhos, meu amigo, muitas vezes desesperadamente meu amigo. Amanhã, dia 9 de Novembro, faz 80 anos! Com um currículo invejável, com uma lucidez fantástica, com um grupo de amigos que o têm no coração, por quem foram acompanhados durante tantos anos, meu querido professor, amanhã lá estarei, sem falta, na Faculdade de Letras para um abraço de parabéns!

A foto tem o Professor Malaca Casteleiro e o Professor Fernando Cristóvão, à esquerda e à direita respectivamente.

F Cristovao

 





Poesia

6 11 2009

Sara Augusto

 

 

Serve este post apenas para experimentar uma formatação diferente, que permitirá compactar mais a publicação de textos poéticos em estrofes, de que nós tanto gostamos. Escrevi os dois versos, seleccionei-os com o rato, cliquei em “parágrafo”, e seleccionei a opção “endereço”: ficou automaticamente em itálico e reduziu o espaço entre os versos.

Quanto ao poema, apenas um devaneio antigo dos meus tempos de estudante em Viseu, bendita cidade, numa noite de Verão, sentada nas escadas da Sé, ainda quentes do calor do sol, com um céu azul cobalto a cobrir o adro. Como o tempo se alongava à minha frente e tudo parecia possível. Como o tempo correu e a vida tratou de me ensinar que é feita de curvas, de becos sem saída e mesmo assim sendo obrigatório seguir em frente…

Nesta manhã chuvosa de Outono, em que apanhar o autocarro de mochila pesada nas costas me pareceu um pesadelo, em que espero que chegue a noite para ter boas notícias, soube-me bem lembrar qualquer coisa que me aquecesse o coração e me desse ânimo para trabalhar.

Fotografia daqui (belíssimo site, por sinal).

Sé de Viseu
 
Levantam as pombras do adro quando anoitece.
Entre elas vai minha saudade.




Gonçalo

5 11 2009

Sara Augusto

 

 

1-5-09 112Querido Gonçalo,

é possível que daqui a muito tempo não te lembres de 2009, quando fizeste 5 anos e ficaste muito doente. E ainda bem. Espero que tenhas muitas mais memórias e acredito que hão-de ser muito felizes.

Nestes longos meses, no entanto, fizeste muitos amigos; estiveste no coração de muita gente; preencheste com o teu sorriso muitas horas de oração. Amanhã vais ser operado pela segunda vez. Mais uma vez te abraço bem dentro de mim sem deslargar das tuas mãos,  peço a Deus que afaste de ti este sofrimento, pesado de mais para uma vida tão luminosa e ainda tão breve. 

Gosto muito de ti.





Indagações

5 11 2009

Sara Augusto

 

 

VaticanoO estudo da literatura de viagens no contexto da literatura portuguesa tem sido ocupado quase exclusivamente com a literatura produzida no âmbito da expansão ultramarina, abrangendo diários, relatórios, relações, relatos, roteiros, cartas, todo uma produção capaz de fazer a história dos descobrimentos portugueses desde o extremo Oriente até ao sertão do Brasil. O prolongamento desta literatura pelo século XVII e XVIII adiante foi feito sobretudo pelo recurso aos relatos de naufrágios, realçando a narrativa de aventuras por mares inóspitos, a espectacularidade do desastre marítimo e a visualização do sofrimento e do heroísmo.

Isto significa que uma percentagem significativa da literatura de viagens, neste caso não só as viagens a Roma mas também as viagens pelo resto da Europa, foi esquecida desde muito cedo por não corresponder a uma tipificação estabelecida pela viagem ultramarina. Este facto torna-se evidente quando verificamos a quase total inexistência de registos impressos das viagens a Roma, tendo-se mantido até agora os manuscritos guardados nas secções de livro antigo das bibliotecas e dos arquivos.

Contudo, estas narrativas, relações, relatos e descrições da viagem romana, são de fundamental importância para a literatura portuguesa, pelo facto de permitirem o desenho do contexto envolvente da viagem, pelas referências a personagens e factos, descrição de rotas e locais, oferecendo com frequência visões amplas da sua época. Esta envolvência torna-se ainda mais importante na época barroca, período em que encontramos o maior número destas narrativas à cidade dos Papas, uma vez que o discurso barroco privilegia aspectos diversos e distintos, optando por um discurso mais atento à descrição de personagens e ambientes, focando a atenção na ostentação e curiosidade artística.

Colocando-nos, então, na época barroca, colocam-se duas questões: por que razão se vai a Roma? Por que se regista a viagem?








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