Sara Augusto
Acordei a pensar no que escrevi aqui ontem. E reitero esta minha impressão mais entranhada: que não gosto mesmo de viajar. É possível que tenha a ver com as minhas últimas viagens, com o facto de estar cansada, de continuar a ter imenso que fazer e todas as horas sentadas numa carruagem ou no espaço apertadíssimo de um avião me pareçam o maior desperdício do mundo.
Mas depois pensei na Beatriz, na Gina, na Helena, no Paulo e outros tantos. Conheci a Gina na minha primeira ida a Varsóvia. Ela adormeceu no intercidades, acordou quando o comboio já estava a sair do Oriente e fui eu que a ajudei com as malas. Tomámos o mesmo taxi e estivémos duas horas na conversa até cada uma embarcar no seu avião, ela com destino à Argentina, para embarcar no cruzeiro em que trabalhava. Até hoje somos amigas e costumo receber fotografias espantosas da Patagónia, do Mediterrâneo, do Alasca e de qualquer sítio por onde ela pare. Viajei com a Beatriz, a minha Carlota Joaquina, para Ouro Preto e foi ela que esteve ao meu lado num dos piores momentos da minha vida, enquanto eu me arrastava pelas esquinas da Rua do Ouvidor e chorava numa praia nublada de Copacabana.
E a Helena? Depois de tê-la conhecido no mesmo congresso em Varsóvia, há quase três anos, já viajámos juntas para os Estados Unidos e apresentámos trabalhos também em Maynooth. Já passámos horas e horas a conversar, entre aeroportos e comboios, em restaurantes e parques urbanos, visitámos juntas grandes museus e partilhámos o mesmo quarto, desde albergues a hotéis de charme. A Helena é casada e tem dois filhos, com a mesma idade de alguns dos meus sobrinhos. Com eles sinto-me em casa. Quanto ao Paulo, é o meu mais recente companheiro de trabalho e sei que teremos grandes desafios pela frente. Estivémos quase todo o tempo juntos neste último congresso, conversámos, desabafámos, conhecêmo-nos. Foi essencial definirmos as nossas linhas de atitude e de pensamento. Acho que nos entenderemos.
Que conclusões? Perdi tempo, mas ganhei pessoas, amigos diferentes, que me conhecem como poucos. Quando viajamos tornamo-nos mais expansivos e ousados, revelamos o que temos de melhor e de pior. Mas, sobretudo isto, aprendemos a superar as nossas impaciências e os nossos medos, a confiar nos nossos companheiros de viagem, a afirmar as nossas convicções de cabeça aberta à diferença, a encontrar equilíbrios nas opções disponíveis, a experimentar sugestões de que nunca nos lembraríamos, mas também a distinguir o risco do verdadeiro perigo.
Quando penso nos quase dois meses que estive hospedada no Colégio, em Roma, vejo como aquele espaço foi para mim uma casa. Tenho na memória, apesar da perda irremediável do diário, a sucessão dos dias e os momentos em que me relacionei, de formas tão distintas, com cada um dos amigos que fiz. Fiquem sabendo que tenho saudades e que espero que todos estejam bem. E que se lembrem de colaborar neste blogue…




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