Talvez pudesse intitular esta série de postes com “viagens na minha terrinha”… e talvez devesse publicá-los no meu próprio blogue, que jaz agora quase abandonado. Mas tenho sempre tantas coisas para vos contar e perguntar que vou deixar de me incomodar com o facto de todos estarem de férias e ausentes deste espaço virtual.
Também este domingo, com os pais e manas a banhos na cosmopolita e ventosa Figueira da Foz, resolvi passear por territórios da diocese da Guarda que até há pouco tempo praticamente não conhecia nem queria conhecer… mas chamaram-me ignorante e pretensiosa… enfim, lá fui. Comecei por Pinhel que é uma cidade bonita. Visitei o castelo, mas o Museu de Arte Sacra estava a fechar, o que foi pena, e na Matriz decorria um casamento… Gostei do portal e das janelas manuelinas. No posto de turismo foram imensamente atenciosos. Comi uma lasanha de bacalhau que me soube a bacalhau com natas. Uma delícia!

Depois… bem, depois estava um calor difícil de aguentar e só me apetecia dormir uma sesta junto de um rio, debaixo de um castanheiro. Mas resolvi andar de carro e sentir o vento na cara. Tinha tido notícia de algumas aldeias interessantes: Aldeia, Faia, Cidadelhe. Fui a todas. Aldeia, para além de um aglomerado de casas em granito com ar fantasmagórico, pareceu ser propriedade privada. Cidadelhe tem uma Igreja do século XVI, mas estava fechada. Tem ainda uma capela de S. Sebastião, com este fresco lindo no exterior (aí ao lado direito), e mais algumas ruas de casas abandonadas. Mas foi com Faia que fiquei verdadeiramente impressionada. A grande atracção consistia nas pinturas do Paleolítico superior e do Neolítico. Pois… devia ter levado sapatilhas e estar disposta a perder-me no meio de tanto granito. Mas a aldeia está lá… abandonada. Abandonada a aldeia e abandonados os seus quatro viventes. Nunca até então tinha tido a verdadeira noção do que é a desertificação do interior do país. Fiquei a ter. Se na Coriscada (Meda) não tivesse visitado a vila romana (que encontrei por puro acaso, depois de no café da aldeia me terem assegurado que não encontraria…), há pouco descoberta no meio de um olival, cuido até que teria ficado absolutamente deprimida.
No caminho para a Meda, dou de caras com Marialva! Dei dois berros de alegria e lá fui, absolutamente encantada por voltar a um castelo onde estive há tantos, tantos anos, quando era miúda e os meus pais nos enfiavam na carrinha e nos soltavam por esses castelos fora (Linhares, Trancoso, Marialva, Castelo Rodrigo…). A aldeia antiga está linda, com as casas recuperadas, habitadas (a velhinha linda lá de cima, no início do post, vive ao lado das muralhas), mas as portas do Castelo estão fechadas, abrindo-se aos visitantes a partir do posto de turismo e preservando o complexo do castelo, da casa do município, do pelourinho, da Capela da Misericórdia (uma pequena jóia de traça maneirista) e a Igreja de Santiago, fechada para restauro.
Por acaso, estavam por lá duas senhoras (com uma cadela que me ladrou até à exaustão…), que tinham ido verificar o andamento das obras e me deixaram entrar.
E foi com esta imagem (de que Santo? ajudem-me, se faz favor…), suavemente inclinado na minha direcção, estendendo-me a mão e segurando o Menino no braço esquerdo, olhando-me nos olhos, interrogando-me, acolhendo-me, ao mesmo curioso e pacífico, que fui recebida. Fotografei de todos os ângulos e de todos eles senti a mesma Beleza. Tiveram de me expulsar de lá.
Quando regressei a casa, já declinava o dia e a luz era dourada e quente. E eu vinha em paz. Muito em paz.
Sara Augusto
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