Memoria

27 07 2009

Na Iconologia de Ripa, ou melhor, na Nova Iconologia del Cavalier Cesare Ripa Perugino (1618), reeditada em 2008 por Pierio Buscaroli (Milano, TEA), o emblema da memória aparece com representações distintas. Na segunda descrição (p. 271) diz o seguinte:

Donna con due faccie, vestita di nero, & che tenga nella mano destra una penna, & nella sinistra un libro. La memoria è un dono particolare della natura, & abbracciandosi con essa tutte le cose passate per regola di Prudenza in quelle che hanno à succedere per lo avvenire, si fa con due faccie. Il libro, & la penna dimostrano, come si suol dire, che la memoria con l’uso si perfettiona, il quale uso principalmente consiste, ò nel leggere, è nelle scrivere.

A minha memória está vestida de branco e tem uma das faces constrangida de pena. Perdi o meu diário de Roma. Talvez o tenha apagado sem querer, pensando que já tivesse feito uma cópia ou que já estaria guardado junto do ficheiro das fotografias. Mas não está em lado nenhum. Já perdi horas a correr pastas, uma a uma. Nada.

Restam-me apenas mil e tal fotografias. Mas não é o mesmo. Não vou conseguir lembrar-me de tudo… Esta foi a primeira que tirei em Roma, datada de 16 de Maio, no Vaticano. Era sábado e eu estava ansiosa para sair. Lembro-me que não foi um dia fácil. Tive de reconstruir ruas e praças, limpá-las de recordações antigas. No campo dei fiori comprei um coração de vidro, frágil, luminoso, que aquecia no contacto com a pele. Quando o tocava, num gesto que se tornou habitual, era como se pegasse na mão do meu pequeno Gonçalo e lhe fizesse uma festa. Quando cheguei à noite, depois de caminhar quilómetros, estava exausta, mas estava bem. Tinha passado o primeiro teste.

Imagem 006

Sara Augusto





Secretas melodias

22 07 2009

Oração pelas férias

Dá-nos, Senhor,
depois de todas as fadigas
um tempo verdadeiro de paz.1-5-09 214

Dá-nos,
depois de tantas palavras
o dom do silêncio
que purifica e recria.

Dá-nos,
depois das insatisfações que travam
a alegria como um barco nítido.

Dá-nos,
a possibilidade de viver sem pressa,
deslumbrados com a surpresa
que os dias trazem pela mão.

Dá-nos
a capacidade de viver de olhos abertos,
de viver intensamente.

Dá-nos
de novo a graça do canto,
do assobio que imita
a felicidade aérea
dos pássaros,
das imagens reencontradas,
do riso partilhado.

Dá-nos
a força de impedir que a dura necessidade
esmague em nós o desejo
e a espuma branca dos sonhos
se dissipe.

Faz-nos
peregrinos que no visível
escutam a melodia secreta
do invisível.

José Tolentino Mendonça

 





Viagens

21 07 2009

 

1-5-09 342Talvez pudesse intitular esta série de postes com “viagens na minha terrinha”… e talvez devesse publicá-los no meu próprio blogue, que jaz agora quase abandonado. Mas tenho sempre tantas coisas para vos contar e perguntar que vou deixar de me incomodar com o facto de todos estarem de férias e ausentes deste espaço virtual.  

Também este domingo, com os pais e manas a banhos na cosmopolita e ventosa Figueira da Foz, resolvi passear por territórios da diocese da Guarda que até há pouco tempo praticamente não conhecia nem queria conhecer… mas chamaram-me ignorante e pretensiosa… enfim, lá fui. Comecei por Pinhel que é uma cidade bonita. Visitei o castelo, mas o Museu de Arte Sacra estava a fechar, o que foi pena, e na Matriz decorria um casamento… Gostei do portal e das janelas manuelinas.  No posto de turismo foram imensamente atenciosos. Comi uma lasanha de bacalhau que me soube a bacalhau com natas. Uma delícia! :) 1-5-09 245

Depois… bem, depois estava um calor difícil de aguentar e só me apetecia dormir uma sesta junto de um rio, debaixo de um castanheiro. Mas resolvi andar de carro e sentir o vento na cara. Tinha tido notícia de algumas aldeias interessantes: Aldeia, Faia, Cidadelhe. Fui a todas. Aldeia, para além de um aglomerado de casas em granito com ar fantasmagórico, pareceu ser propriedade privada. Cidadelhe tem uma Igreja do século XVI, mas estava fechada. Tem ainda uma capela de S. Sebastião, com este fresco lindo no exterior (aí ao lado direito), e mais algumas ruas de casas abandonadas. Mas foi com Faia que fiquei verdadeiramente impressionada. A grande atracção consistia nas pinturas do Paleolítico superior e do Neolítico. Pois… devia ter levado sapatilhas e estar disposta a perder-me no meio de tanto granito. Mas a aldeia está lá… abandonada. Abandonada a aldeia e abandonados os seus quatro viventes. Nunca até então tinha tido a verdadeira noção do que é a desertificação do interior do país. Fiquei a ter. Se na Coriscada (Meda) não tivesse visitado a vila romana (que encontrei por puro acaso, depois de no café da aldeia me terem assegurado que não encontraria…), há pouco descoberta no meio de um olival, cuido até que teria ficado absolutamente deprimida.

1-5-09 311No caminho para a Meda, dou de caras com Marialva! Dei dois berros de alegria e lá fui, absolutamente encantada por voltar a um castelo onde estive há tantos, tantos anos, quando era miúda e os meus pais nos enfiavam na carrinha e nos soltavam por esses castelos fora (Linhares, Trancoso, Marialva, Castelo Rodrigo…). A aldeia antiga está linda, com as casas recuperadas, habitadas (a velhinha linda lá de cima, no início do post, vive ao lado das muralhas), mas as portas do Castelo estão fechadas, abrindo-se aos visitantes a partir do posto de turismo e preservando o complexo do castelo, da casa do município, do pelourinho, da Capela da Misericórdia (uma pequena jóia de traça maneirista) e a Igreja de Santiago, fechada para restauro. 1-5-09 313Por acaso, estavam por lá duas senhoras (com uma cadela que me ladrou até à exaustão…), que tinham ido verificar o andamento das obras e me deixaram entrar.

E foi com esta imagem (de que Santo? ajudem-me, se faz favor…), suavemente inclinado na minha direcção, estendendo-me a mão e segurando o Menino no braço esquerdo, olhando-me nos olhos, interrogando-me, acolhendo-me, ao mesmo curioso e pacífico, que fui recebida. Fotografei de todos os ângulos e de todos eles senti a mesma Beleza. Tiveram de me expulsar de lá.

Quando regressei a casa, já declinava o dia e a luz era dourada e quente. E eu vinha em paz. Muito em paz.

Sara Augusto





Em todo o lado

20 07 2009

Sara Augusto

A Serra da Estrela esteve particularmente nevada e bonita este Inverno. Vista de longe… do quentinho, da música e do chá do meu escritório. Mas gosto muito mais dela no Verão. Quando era miúda, costumava acampar nas lagoas e caminhar horas seguidas de penha em penha.

Um destes domingos resolvi ir a Linhares. Desci até ao Mondego, passei ao lado de Gouveia e fiz a estrada nacional em direcção a Celorico. Gosto de andar de carro com os vidros abertos, de sentir o calor nas mãos, dos campos dourados do centeio e dos pastos, do verde das linhas de água. E gosto de me desviar do caminho quando me apetece e apeteceu-me muito molhar os pés numas “termas” de Santo Amaro indicadas num cruzamento. Enganei-me no caminho, mas valeu a pena. Numa povoação, atravessada pela estrada, encontrei esta escultura. Não pude deixar de parar e fotografar. E de sorrir. Passei bastante tempo à frente do original de Miguel Ângelo, sem sequer dar conta dos turistas.

Deixo duas versões da mesma fotografia. Hão-de perceber porquê. :)   Um abraço.

1-5-09 107

 Cópia de 1-5-09 107





Padre Pedro

8 07 2009

1-5-09 236No domingo estive em Ribafeita, diocese de Viseu, na Missa Nova do Pe. Pedro.

Conheci o Pedro numa ida a Évora. Ele, a Fátima e a Beatriz iam assistir a um colóquio sobre restauro de arte e eu aproveitei a companhia para fazer alguma pesquisa e pedir algumas digitalizações na Biblioteca Pública de Évora. Naquela altura gostei da delicadeza dele, mas depois tive ocasião de observar o empenhamento com que se dedica às causas que o apaixonam, a alegria que põe nos gestos e nas palavras, a boa disposição que traz sempre consigo, a forma como olha nos olhos atentamente e nos escuta, a imensa fé que vive e que transmite.

Será difícil tê-lo na minha paróquia como eu pensava que podia acontecer. Mas, seja lá para onde forem os seus passos (não hão-de ser muito longe…), que Deus o acompanhe em todos os momentos da sua vida.

Um grande abraço, Padre Pedro.





Meninos

6 07 2009

Enquanto lavava as folhas da alface ia olhando pela janela ampla da cozinha. Fechei os olhos e ouvi os risos, o bater da bola, as conversas, o ranger do baloiço… consegui recuar trinta anos. Mas já não era eu, nem a Xana, a João, o Pedro, a Sissi, a Sol ou a Nini, talvez bebé a Tá, que a Rute nasceria muito mais tarde, ou ainda os primos, para aí uns seis ou sete… já não éramos nós que agora  iluminávamos as manhãs e as tardes da mata do vale, reino de todas as brincadeiras e ficções. Abri os olhos novamente. As manas conversavam um pouco de tudo, enquanto o assado ficava pronto e se punha a mesa, com as toalhas e os pratos de festa. A Filipa estava ao meu lado, absorta, passeando as mãos pela barriga já imensa de sete meses.

Olhei novamente para o relvado, para a água azul da piscina, hoje fechada para os banhos. O André e o Telmo, com o equipamento do Sporting com o nome de cada um estampado nas costas, trocavam a bola; a Anita e a Inês, vestidas de cor-de-rosa, inventavam coreografias entre as barras do baloiço; o Jaime brincava com o homem-aranha e os carros no passeio do jardim; a Niki tentava abraçar e beijar a Joaninha, já sentada na relva com os seus sete meses de idade. Por entre todos, saltitava o Gonçalo. Tinha o chapéu na cabeça, os pés calçados e as mãos desinfectadas. Quando, num volteio mais arrevesado da bola trocada entre o irmão e o primo, ficou descoberto, senti-lhe a falta dos caracóis de anjo barroco, vi-lhe a pele mais pálida por não apanhar sol, nem tomar banho na piscina, nem correr nos regos da horta. A Anita, mais velha seis meses apenas, apanhou-lhe o chapéu rapidamente e voltou-lho a pôr na cabeça, com um muito responsável “tem cuidado, Gonçalo”…

Estremeci e senti um imenso orgulho de todos eles, dos pequenos, dos pais dos pequenos, dos avós dos pequenos. Guardei uma lágrima miudinha e insistente para depois, quando estivesse sozinha.

O Gonçalo vai fazer amanhã a quarta sessão de quimioterapia. Fariam a gentileza de se lembrarem dele nas vossas orações, meus queridos amigos?

 Obrigada. Sara.

 

1-5-09 112

Falta a Niki.








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