Costumo deambular sozinha por Roma, mas falo pouco com os romanos. Não os conheço bem, apenas tenho impressões. Por isso achei curiosa esta descrição do “génio dos Romanos” feita por Luís Caetano de Lima, em 1722, na sua Relação da Corte de Roma, a pedido e dedicada a D. João V. Actualizei muito o texto, demasiado, mas a leitura ficou com muito menos ruído.
Depois de tantos anos passados em Roma, gostava muito de saber o que pensam da verdade deste julgamento feito nos inícios do século XVIII.
“O génio desta Nação é hoje mui diferente do que foi em outros tempos, faltando-lhe aquele ardor belicoso que respiravam antigamente os Romanos. Isto porém se não deve atribuir à mudança de temperamento, mas à diferença de um governo pacífico que, não cuidando em adquirir domínios pelas armas, escusa formar soldados para a guerra.
São os Romanos dotados de um entendimento claro, em que porém se descobre mais prudência do que agudeza; mas nem por isso deixam de ter suma penetração quando se ajustam negócios de interesse ou se tratam matérias de Estado. Passam por sesudos nos conselhos, fáceis nos arbítrios, oficiosos com os pretendentes, eficazes nos negócios, circunspectos nos discursos políticos, observadores da Ordem, apaixonados pela religião, ou para melhor dizer pela jurdição [sic] eclesiástica, pródigos de ceremónias, polidos no trato, generosos nas promessas, brandos nas repulsas, pomposos no exterior, económicos no particular, investigadores dos pensamentos alheos, e sumamente recatados nos próprios. A estas qualidades ajuntam outras de pouca estimação como é serem dados a uma vida licenciosa, poucos modestos nas expressões familiares, vingativos fracamente das injúrias, escravos da cobiça, devotos por costume, amigos por interesse, desprezadores dos costumes das outras Nações, presumidos de políticas, cultivadores do ócio, pouco laboriosos nos estudos, impacientes nos trabalhos, e mui lentos na execução.
Em quanto às Artes Liberais, é certo que só entre os Romanos se conservam com grande primor a Arquitectura Civil, a Escultura, a Música e a Pintura; e se em Itália se não encontram hoje Ticianos, Rafaeis de Urbino, Buonarotis e Madernos, dela aprendem ainda hoje as mais Nações da Europa, para o que concorrem a Roma de várias partes, animando-as com generosa e real despesa o grande coração de alguns Príncipes; e as obras que se não estimam agora tanto por modernas, virão um dia a ser originais de grande preço.”
Sara Augusto
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